domingo, 30 de julho de 2017

Mas...por que a informação da minha família não chega nunca?



O que tem de errado comigo?
Todos os meus amigos já tem família hospedeira, já sabem para onde vão, menos eu e todo mundo "tira uma com minha cara"...

E se alguém de alguma organização X ler o meu texto abaixo, vai me chamar de preconceituosa, e etc. Mas não sou... simplesmente a gente tem que se colocar no lugar de quem hospeda, a tal da empatia, lembrar que quem hospeda tem receios por nunca ter convivido com a pessoa e não saber da cultura, maneira como foi educado, manias, do passado e etc.

São vários os motivos para a demora da chegada da informação da família hospedeira:

1) se você estiver indo para Canadá, por exemplo, é bem possível que sua família hospedeira seja uma família que hospedou no último ano letivo, a escola canadense está em férias agora e a informação da família chega mais próximo ao embarque. Ou seja, as escolas no Canadá esperam o término de uma temporada para enviar a informação das famílias de quem vai embarcar para a próxima temporada. A mesma regra se aplica a Nova Zelândia, Austrália, Irlanda, Inglaterra.

2) as vezes, uma informação que você colocou no seu application pode ser decisivo para a rapidez ou demora com que você seja colocado:
- lembro-me da mãe do Leandro pedindo a ele que cortasse o cabelão pra colocar as fotos no application, mas o Leandro não quis cortar o cabelo... pôs todas as fotos com o cabelão. Pra piorar ainda mais a situação, Leandro era vegetariano, roqueiro, baterista de banda, diabético. Mas tinha um humor e uma sensatez que só ele. E não é que a família dele chegou logo e foi A FAMÍLIA pra ele: o irmãozinho postiço hospedeiro adorou o cabelão do Leandro, o irmãozinho também era roqueiro e tudo o que ele queria era um irmão roqueiro. Implorou para a mãe hospedar o intercambiário Leandro e a mãe hospedeira gostou da idéia. E pra ajudar..num é que a família era vegetariana?! Que tudo.
- a Karen, uma outra intercambiária, fez um application genial, no entanto, deu ênfase demais à religião, colocando coisas como..."sempre que temos que decidir um assunto...eu e minha família oramos e pedimos a resposta"...até aí nada de errado, se não fosse o tanto de vezes que ela enfatizou isso. Acabou passando a imagem de uma fanática religiosa. E este foi o motivo da demora na colocação. O intercâmbio de Karen, o destino era a Alemanha e os alemães não são religiosos.

E não tem a ver com estampa física da pessoa...por exemplo:
Guilherme, um intercambiário lindo, fisicamente muito bonito, foi o último da turma a ter família. E a família era 10. Guilherme adorava futebol, jogava muuuuito e o pai hospedeiro era o treinador do time da escola, os 4 irmãos também jogavam futebol. Lembro-me que a família do Guilherme chegou num dia, pedindo embarque para o mesmo dia, pois ele precisava estar lá no dia seguinte para um acampamento com o time da escola. E chegar num intercâmbio assim facilita muita coisa... esportes facilitam tudo.
As vezes, os "belos" fisicamente inibem famílias que tem meninas da mesma idade. O menino brasileiro tem fama, e é fama de Don Juan e nas famílias mais conservadoras que tem meninas em casa, o pai hospedeiro pode "implicar" com este tipo de colocação e só aceitar hospedar meninas, por exemplo.
Mas existe a situação contrária também... já vi famílias hospedeiras cheias de meninos, com vontade de ter uma filha menina e hospedaram uma menina e muito bem. E o contrário também... uma família cheia de mulheres que decidiu hospedar um menino. E quando questionei  o motivo, a família austríaca que era a que só tinha mulher na casa respondeu: "_ a gente não aguenta mais ver tanta calcinha no varal...o nosso varal precisa de uma cueca." Algumas coisas curiosas dessa colocação (menino com um bando de meninas), não pense você que ele tinha regalias na casa por conta disso. Nada disso: ele dividia as tarefas domésticas com as meninas e participava dos afazeres tanto quanto elas. O curioso é que na casa não tinha televisão e isso era opção. A família decidiu não ter TV em casa porque não achava útil, porque em vez de assistir TV, preferiam um bom papo de família.

Uma outra situação que vi a demora em vir a família hospedeira foi uma adolescente chamada Mariza, que escreveu no application, que quando tinha problemas, resolvia sozinha, se trancava no quarto e chorava muito, mas não contava pra ninguém. As famílias candidatas a família hospedeira ficaram receosas em hospedá-la com medo que ela passasse por uma situação complicada no intercâmbio, de urgência ou de emergência, grave e que não contasse a ninguém.

Os alérgicos precisam entender que: todo mundo é alérgico a alguma coisa neste mundo em que vivemos e a esta altura do campeonato. Então, se você é alérgico a pele e pelos de animal, carpete, tapete, pó, picadas de insetos e outros bichos, não precisa por na sua informação e nem precisa criar uma história alarmante em cima disso. Só coloque se você perde a fala, fica sem ar, entra em coma e tem que ser internado em hospital. Caso contrário, não é grave e qualquer antialérgico resolve.
Então, leve seu remédio antialérgico na viagem e não crie caso por conta disso. Essa mania que brasileiro tem de ficar relatando isso é uma das coisas que mais assusta as famílias hospedeiras e elas perguntam: "_tá, mais o que eu faço com o intercambiário, encapo? ele é alérgico a tudo, não tenho uma casa adequada para hospedar nesta situação e vou arrumar problemas."

Uma vez, um intercambiário chamado Álvaro, que media 2m X 2m se inscreveu no programa de high school e se inscreveu tarde. Quando eu recebi o application do Álvaro, eu imediatamente liguei para Álvaro e eu disse:
"_ você é gordo e grande, e você colocou 7 fotos no seu application e em todas as fotos você está comendo... e no estilo "boi com pão", tem certeza que vai mandar um application assim?"
Então, Álvaro me explicou que não teria condições de me mandar novas fotos a tempo do prazo que tinha para entregar a documentação e não tínhamos outra saída, a não ser enviar as fotos do comilão.
Todo mundo da turma foi colocado, e o Álvaro sem família hospedeira.
Então, ele me ligava e dizia:
 "_ Pê, ninguém me quis ainda."
e eu dizia...
"_não né Álvaro, com aquelas fotos que você colocou, quando alguém vê aquilo, na mesma hora desiste de você,"
Entrou setembro e o Álvaro ainda estava sem família. E eu consolando o Álvaro...um dia colocava-o no colo e no outro esculhambava com o coitado.
Até que na véspera do feriado de 7 de setembro, chegou a família hospedeira do Álvaro e eu enviei as informações pra ele.
Isso já faz muitos anos, mas até hoje lembro da voz de felicidade dele ao telefone...
_" Pê, você viu que família genial que veio pra mim...olha,  eu vou pra Califórnia, tenho irmãos, vou pra Lompoc, que é a cidade das flores, meu pai americano trabalha na Nasa, tem um bando de cachorro na casa e eu amo cachorro. Que perfeito! Está vendo só e você disse que eu não ia ter família nunca com aquele meu álbum de fotos"
Então, eu lhe disse..
"_Alvaro, você não leu a nota no quadro no final da página né... no quadro de observação está escrito que sua mãe hospedeira é cega. Portanto, ela não viu suas fotos e por isso ela está te hospedando."
Nós rimos muito. De rolar! De chorar!
Álvaro tinha um coração tão gigante quanto ele e se deu muito bem no intercâmbio:
- a mãe hospedeira era cega de nascença e treinava cães guias, tinha uma "empresa" pra isso.

- a avó morava na casa para auxiliar a mãe e colocou o Álvaro de dieta, nem deixava o Álvaro levar dinheiro na escola pra não comer porcaria... ela fazia uma lancheira pro Álvaro com frutas, suco e lanche light
- o pai hospedeiro corria 7 milhas todos os dias às 5h da manhã e o Álvaro passou a ser sua companhia nas corridas, pois era o horário que eles conseguiam conversar e trocar umas idéias.
- Álvaro comprava quebra-cabeças para montar com as crianças e se divertia com elas, mesmo as crianças sendo meio chatinhas, segundo ele, crianças mimadas americanas.
Resultado: a família hospedeira pediu para Álvaro ficar mais um semestre com eles. Álvaro não ficou porque os pais brasileiros, naquela ocasião, não permitiram, por motivos pessoais.
A amizade entre eles dura até hoje.
E não é que Álvaro emagreceu no intercâmbio e voltou moço bonito!

E tenho ainda mais histórias para contar, mas antes de continuar, o que fica de lição disso tudo até agora: as famílias querem uma pessoa QUE SEJA FÁCIL DE LIDAR, a tal da EASYGOING, alguém que acrescente algo novo e bom na vida da família,  não importa se você é feio ou bonito, rico ou pobre, a cor da sua pele, religião, nada disso importa...importa que você seja de fácil convivência e que carregue bagagem na mente e no coração.

Um comentário:

  1. <3 Adoro essas histórias, faz a gente voltar naquela época tão gostosa!

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