quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Os medos



Sempre que vou entrevistar um candidato a intercâmbio, sempre vem à tona um medo que a pessoa  tenha.

Normalmente, aquele medo que estava quieto, adormecido é lembrado e volta a incomodar o futuro intercambiário e os seus pais ou responsáveis e as pessoas que vivem ao seu redor e sabem.

Tenho alguns exemplos disso que vou resumir em pequenas histórias....





Episódio Priscila:
Certa vez, a mãe de uma intercambiária me disse:
 "_ você pode por minha filha em qualquer lugar dos Estados Unidos, menos na Flórida, pois tenho medo dos furacões. Também não quero na Califórnia, porque pode ter um terremoto".
Então, escrevi para a coordenação nos Estados Unidos e pedi que não colocassem a menina nesses dois estados.
A menina foi colocada no estado de Oregon. E um dia, quando estava no teatro com sua mãe hospedeira, a fileira de cadeiras do teatro começou a balançar. A menina achou que era alguém se mexendo demais e fazendo toda a fila de cadeiras se balançar. Foi quando sua mãe hospedeira disse a ela: 
"_ Estamos no meio de um terremoto e você deve agir da seguinte maneira: procure uma mesa, ou um batente de porta ou algo assim e fique embaixo...etc...etc.
Fazia 30 anos que não tinha um terremoto no Oregon, mas aquele ano teve. Ninguém se feriu.

Episódio Sara:
Sara foi colocada na região de New Orleans e naquele ano, passou por lá o furacão Katrina. O Furacão Katrina foi um grande furacão,que destruiu uma parte dos EUA, uma tempestade tropical que alcançou a categoria 5 da Escala de Furacões de Saffir-Simpson. Este furacão fez New Orleans e redondezas se transformarem em cidades fantasmas. A destruição foi tamanha que sobrou pouca coisa do lugar e o que sobrou ficou exposto a saques para fins de sobrevivência. 
Lembro-me da coordenadora do programa na região mandando mensagens pra gente aqui no Brasil dizendo o seguinte: "percorri toda a região, pois estamos sem comunicação e dirigi por longas distâncias para conseguir chegar a um lugar para mandar essa mensagem a vocês: quero que saibam que apesar da destruição, todos os intercambiários e suas famílias estão a salvo. Não temos comunicação, nem energia elétrica...nada. Avisem os pais para ficarem calmos. Não conseguirei mandar notícias com frequência, mas se algo acontecer, dou um jeito de avisá-los. Ofereci aos meus estudantes trocá-los de família, de estado, de escola, ofereci acompanhamento psicológico mas eles não quiseram, rejeitaram todas estas ofertas."
A casa da família hospedeira de Sara tinha ficado em pé (inclusive a casinha do correio),  mas tudo ao redor foi devastado. Era a única casa em pé num raio de quilômetros. Sara recusou-se a mudar de família, de cidade, de estado, de escola. A escola aonde Sara estudava se transformou em abrigo e a coordenadora estava preocupada com o ano letivo. Mas Sara preferiu ficar e ajudar as pessoas que estavam abrigadas na escola.
Sara ia pra escola que agora era abrigo e brincava e distraía as crianças para que os adultos conseguissem providenciar outras coisas como por exemplo, reconstruir as casas. Sara tornou-se uma pessoa muito querida, fez amigos pela vida toda e foi uma das experiências de intercâmbio mais ricas que eu conheço.
Na época do furacão Katrina, eu tinha um estudante no estado de Washington e todo final de semana, ele e o pai americano tomavam um avião e iam até New Orleans para ajudar as vítimas do furacão.

Episódio Catherine
Catherine foi hospedada por uma família na qual o pai hospedeiro era aviador e tinha um pequeno avião. Um belo dia, a família hospedeira pediu autorização aos pais daqui para que deixassem Catherine voar com o pai no pequeno avião. A mãe daqui do Brasil ficou aflita: e se ela permitisse e acontecesse algo? Ela não ia se perdoar jamais. A família daqui do Brasil acabou por permitir os voos e Catherine teve uma experiência rica e diferente.

Episódio Camila
Camila se inscreveu para o intercâmbio, mas avisou: " _tenho trauma de cachorro. Não consigo ficar perto, tremo de medo, pois tive uma experiência ruim neste sentido. Só de falar em cachorro, eu entro em pânico"
Num primeiro momento, a coordenação do programa no exterior ficou apavorada porque aonde eles iriam arrumar uma família sem o cachorro. Muito se fez e se encontrou uma família sem cachorro. A família tinha apenas um peixe no aquário. O pai hospedeiro era apresentador de TV e era muito divertido. Ele ofereceu a Camila muitas oportunidades de se relacionar com cachorros para que ela aprendesse a lidar com o próprio medo. 

O onze de setembro
Quando aconteceu o 11/09/2001, a maioria dos intercambiários tinha acabado de embarcar para o início do ano letivo americano. Muitos intercambiários viram e não entenderam a reportagem na TV e acharam que era propaganda de um filme que ia estrear. Os intercambiários souberem da tragédia pelos pais brasileiros e pelos professores na escola. Na ocasião do 11/09 muito se falou... chegou-se a falar que aquilo seria o estopim para a III Guerra Mundial.  Em seguida ao 11/09, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e existia um medo no ar de que algo de ruim iria acontecer no mundo todo. Não vou eu aqui relatar fatos históricos, pois você pode encontrar reportagens e reportagens sobre isso e todas as consequências para o mundo em N canais de comunicação. Em seguida a tudo isso, veio ainda o episódio das cartas que chegavam pelo correio contaminadas com um pó, um vírus poderoso chamado antraz.  Este episódio contribui muito para inflar os ânimos imediatamente após o 11 de setembro. As pessoas ficaram com medo de sair de casa, quanto mais viajar para fora do país. Os pais brasileiros pediam aos filhos nos EUA ou que estavam pelo mundo que voltassem para casa no Brasil aonde estariam seguros.. Diante de tudo isso, o que eu tinha era pais e responsáveis pedindo que eu arranjasse a volta dos filhos para o Brasil, mas os filhos se recusaram a voltar e diziam aos pais que,  lá nos EUA, a vida continuava normalmente, que em cada casa tinha uma bandeira dos EUA por conta de tudo, mas que eles tocavam a vida normalmente. Os filhos também diziam que nada daquilo que a TV brasileira estava fazendo de exploração e sensacionalismo ... nada daquilo chegava até aonde estavam. 


Medo, medo de tudo, medo disso, daquilo, os medos.....

Certa vez conversando com uma amiga que aqui chamarei de JK, ela me disse o seguinte:
"_ Precisamos tomar cuidado com a proporção que nossos pensamentos tomam...Pensamento não se pega, não é palpável, mas se você alimenta os pensamentos, fica de tal forma, toma tamanha proporção e importância que passamos a ficar na dúvida se realmente é só um pensamento seu, se tem fundamento... uma coisa é certa. PENSAMENTOS NÃO SÃO FATOS. O QUE VOCÊ ACHA, É SÓ O QUE VOCÊ ACHA, NÃO É UM FATO."
"_ E nunca deixe de fazer nada por conta de medo, seja do que for. Enfrentemos o medo. Senão daqui a pouco teremos medo de ter filhos pra não expô-los ao mundo, daqui a pouco não sairemos mais de casa pra trabalhar, daqui a pouco deixaremos de viver. Não adie sonhos por causa de medos. Enfrente-os. Ninguém nasce corajoso, torna-se. E a única forma de tornar-se corajoso, é enfrentando nossos bichos. "
"_viva, viva intensamente e muito e um dia de cada vez. "

Com certeza, minha amiga JK contribuiu para que este mundo fosse um lugar melhor. Ela já se foi. Quando descobriu que estava com doença degenerativa, comprou um trailer em formato de casa e viajou até aonde conseguiu. E aonde quer que ela esteja, ela continua me inspirando. Thank you J.K.



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