sexta-feira, 17 de junho de 2016

FAMÍLIA HOSPEDEIRA NO HIGH SCHOOL


Como muita gente está embarcando agora em julho e agosto e quem não tem família ainda fica meio desesperado (mas não é preciso), vamos falar um pouco sobre  acomodação durante o intercâmbio, especificamente no high school. Como o tema é extenso, vou dividir por assunto.

Alguns estudantes ficam hospedados em casa de família, outros ficam em uma situação hospedeira similar a uma família e outros ficam nas dependências da escola:

Casa de família:
As famílias são rigorosamente selecionadas e isto vai desde entrevista até busca por antecedentes criminais. As famílias devem oferecer ao estudante um ambiente seguro, agradável e acolhedor. A classe social da família ou profissão dos pais não importa. Importa que a família hospedeira tenha condições de dar conselho, de se responsabilizar, sustentar o estudante. Caráter é importante. A família hospedeira pode ser:
- pai e mãe;
- uma pessoa (single);
- um casal com filhos (com crianças pequenas, adolescentes ou jovens adultos);
- de qualquer cor, raça, religião, crença, ideologia política, time de futebol e etc
O esforço de adaptação de um estudante que decide por casa de família é maior do que um estudante que decidiu pela boarding. Quando o estudante chega em casa de família, deve estar preparado para passar pela fase da adaptação: nem o estudante e nem a família são perfeitos. A família tem uma história e um passado dos quais o estudante não participou. O estudante é um membro da família, mas sem essa bagagem de informação. Num início, as rotinas são diferentes e o estudante ainda não conhece bem as pessoas com as quais vai conviver. Porém, com o passar do tempo, o entrosamento virá e o intercambiário verá que a experiência de morar com uma família hospedeira é enriquecedora, confortante e que o ajudará a praticar o idioma, além de se integrar à cultura local com muita facilidade. O estudante passa a ter a família brasileira e a família do intercâmbio.
Estudantes hospedados em casa de família, geralmente fazem o café na manhã e o jantar na família. O almoço é feito na escola e o estudante deve pagar por este almoço.

boarding
Para alguns pais, optar por uma boarding school evita um certo estresse de início e se sentem mais seguros. A maioria das boarding schools compensa o tempo da vivência em família com jogos, brincadeiras, atividades extracurriculares, competições. A idéia da boarding school é oferecer formação além de informação, então se trabalha muito em cima de valores, de caráter, de independência, e etc. Esta é uma ótima oportunidade para conhecer estudantes de várias partes do mundo e fazer amigos espalhados pelo mundo todo, conhecer uma enormidade de culturas através dos amigos da boarding school.
Na maioria das vezes, essa opção de acomodação é oferecida somente em escolas particulares.
Os estudantes que ficam em boarding (hospedados na própria escola) tem as 3 refeições diárias incluídas no preço.
Culturalmente, as boarding schools fecham por 2 semanas no período do Natal. Os alunos que desejarem podem vir para o Brasil passar essas duas semanas, ou combinar com os pais naturais de se encontrarem e viajarem pelo país do intercâmbio ou países vizinhos, por exemplo. Algumas escolas deste tipo (boarding/internato) oferecem a opção do estudante se mudar para uma casa de família próximo a escola durante este período por um valor adicional. As escolas fazem uma parada próximo ao nosso feriado da Páscoa, conhecido como Spring Break. Neste período, as escolas não fecham, mas suspendem as atividades. Como não se sabe qual opção estudante e pais decidirão, essas semanas não são incluídas na formação dos preços e deverão efetuar pagamento a parte.


TIPOS DE FAMÍLIAS HOSPEDEIRAS


A família pode ser:
- voluntária, que não recebe nenhum tipo de ajuda financeira pela hospedagem e faz de livre e espontânea vontade;
- a que recebe ajuda de custo para hospedar;
- e a remunerada.
A família hospedeira é sempre “o item” que causa a maior expectativa. E dependendo do tipo de intercâmbio, do país, vamos ter diferentes tipos de família hospedeira: 


FAMÍLIA VOLUNTÁRIA 

- as famílias são voluntárias e não recebem nenhum incentivo pela hospedagem e muitos programas de high school ainda tem isso como característica forte ou como principal característica; 
- é considerado membro da família apenas quem vive no mesmo teto, filhos casados que se mudaram, ou avós que moram próximos, não são considerados “família” e não constam da informação da colocação;

- esta família precisa ser selecionada e orientada por uma organização internacional. Esta organização precisa ser acreditada por órgãos do governo daquele país, ou seja, o intercâmbio precisa ser feito através de uma organização com autorização para colocação nesse tipo de acomodação ; 

- cada organização segue uma determinação ou um costume de seleção em seu país; por exemplo, nos EUA, a família precisa ser entrevistada em casa, apresentar referências, estas referências precisam atestar a boa índole da família, puxa-se antecedentes criminais desta família. Já, na Alemanha, a maioria das famílias que hospedam são as famílias que enviaram filhos para intercâmbio e já se tem muita informação desta família sem a necessidade de antecedentes criminais;

- como as famílias são voluntárias, o estudante não escolhe cidade, estado, família, etc, ou não escolhe o lugar para aonde vai; o direito de escolha é da família; o estudante é “escolhido” . Entende-se que, uma família que abriu as portas de sua casa, sem nenhuma vantagem financeira para fazê-lo, que passou por todo o processo seletivo e se comprometeu a seguir as diretrizes do programa, entende-se que ela é quem tem o direito de escolha do estudante;

- as vagas para intercâmbio com este tipo de família são limitadíssimas. 



FAMÍLIA QUE RECEBE AJUDA DE CUSTO PELA ACOMODAÇÃO 

- as famílias hospedeiras recebem ajuda de custo pela hospedagem; 

- esta ajuda financeira não é fonte de renda da família hospedeira e sim uma forma de custear os gastos com o estudante. Na opinião destas famílias, elas conseguem dar uma situação melhor para o estudante por conta desta ajuda de custo;

- são famílias que tem interesse nas culturas do mundo todo e gostam de casa cheia, de conhecimento e estão dispostas a compartilhar da intimidade de seu lar, seu modo de vida com o estudante de intercâmbio;
- eu diria que as famílias canadenses e espanholas são as que melhores se encaixam neste perfil. O Canadá exige carta de custódia das famílias hospedeiras, uma espécie de, “você (família) é responsável perante nossas leis pelo estudante que hospedar em sua casa”.

FAMÍLIA REMUNERADA 

- são famílias que recebem remuneração por hospedar estudante;

- normalmente hospedam dois ou mais estudantes ao mesmo tempo;

- geralmente não tem como objetivo saber a cultura do estudante, podem até ter o interesse na cultura “alheia”, mas não é exatamente esse o objetivo, também não pretendem nem abrir sua intimidade, nem envolver o estudante em suas atividades de dia a dia, apenas se preocupam em proporcionar uma boa acomodação durante o período de estudos;

- algumas famílias vivem deste tipo de atividade e encaram isso como uma prestação de serviços. E como prestadores de serviços, são cordiais e fazem de forma a agradar para continuar no programa;

Independente de receberem algum incentivo ou não, essas famílias nunca foram obrigadas a abrirem as portas de suas casas para estes estudantes, mas sim, são famílias que, em sua maioria fazem parte de um sistema de boa vontade, apoiando os princípios de solidariedade, irmandade e paz entre as nações. E por esta razão, os intercambiários devem mostrar respeito para com sua família hospedeira, seguindo as regras e mostrar-se prestativo;
- os países que comumente se enquadram aqui são: Inglaterra, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia.


DOUBLE PLACEMENT
Algumas famílias hospedeiras preferem hospedar dois estudantes ao mesmo tempo, normalmente de mesmo sexo e nacionalidades diferentes. Em geral, as famílias que decidem por isso , são casais sem filhos ou pessoas sozinhas. Acredito ser uma forma do estudante ter uma outra companhia. Algumas pessoas me perguntam se isso é bom ou ruim. Eu, particularmente, acho ótimo, visto que o estudante já começa o programa com um amigo, alguém na mesma situação que ele.
Óbvio que será inevitável comparações entre você e o irmão hospedeiro estrangeiro, assim como tem uma outra cultura nesta história; mas isto também é enriquecedor.


POR QUE AS FAMÍLIAS HOSPEDAM?

Merecem especial destaque, as famílias que hospedam voluntariamente. São famílias que abrem as portas de seu lar para receber estudante, e não tem nenhum ganho ou vantagem financeira por isso.
Trata-se de uma situação comum, no intercâmbio de high school. Este tipo de intercâmbio de high school com famílias voluntárias, ainda é comum nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, que é o velho mundo, que sofreu com guerras.
Na verdade, após a Segunda Grande Guerra Mundial, as famílias de descendência europeia que viviam nos Estados Unidos começaram a receber as crianças (órfãos alemães) que perderam seus pais por conta da guerra. Estas crianças saíam da Alemanha e seguiam para viver e estudar nos Estados Unidos.  Crianças órfãos de outros países como Vietnã e dos demais países da Europa também foram “adotadas” pelos americanos e aos poucos este número de países envolvidos em hospedar, dar abrigo, conselho, amor, oportunidade de estudos e em divulgar e promover a paz mundial aumentou, expandindo-se para outros países. E assim, começa a história do intercâmbio .... e vamos aos motivos:

Motivo 1:
Em alguns países, hospedar já faz parte da história, da cultura, do desenvolvimento humano. Está intrínseco no modo de vida deles. Exemplo: Alemanha, Áustria, França, etc

Motivo 2:
Algumas famílias hospedam para aprender sobre outros países e culturas e ensinar sobre sua cultura. Lembro-me de um menino que foi para o high school e viveu a seguinte situação:
-a mãe hospedeira era uma torpedo woman, uma single woman, com 4 filhos (3 meninas e 1 menino). A princípio, o intercambiário Gustavo achava que tinha sido hospedado para ser companhia para o menino, já que na casa predominava mulheres. E um dia, durante o jantar, ele perguntou a mãe hospedeira o porquê ela decidiu “pegá-lo” como intercambiário. E Gustavo contou-me que a resposta dela foi:
“- Gus, nós americanos sabemos muito pouco de outra cultura, dos outros países... nossas escolas só ensinam e focam na cultura e história americana. Mas eu preciso que meus filhos saibam que o mundo vai além disso, além das fronteiras americanas. No entanto, eu tenho 4 filhos e trabalho na Marinha Americana e não tenho condições financeiras de mandar meus 4 filhos fazer intercâmbio, então, faz um tempo, eu decidi trazer o mundo pra dentro de minha casa... Você é o brasileiro e com você estamos aprendendo coisas sobre o Brasil e enquanto eu tiver forças pra trabalhar e sustentar esta casa, eu pretendo trazer um intercambiário de uma nacionalidade diferente todo ano pra minha casa.”

Motivo 3:
As famílias hospedam para aprender ou praticar outra língua, além de proporcionar um ambiente nativo da língua local para que o estudante aprenda.
Atualmente, um exemplo disso, tem sido os chineses... eles tem recebido intercambiários do mundo todo em suas casas, voluntariamente, para que desta forma, seus filhos aprendam o inglês.
Ninguém chega na China falando mandarim, todo mundo chega falando a língua comum, ou seja, o inglês.
Então, já que todo mundo chega na China e só sabe falar o inglês, os chineses “aproveitam” isso pra que seus filhos aprendam o inglês de uma maneira rápida, eficiente, sem gastar com escola.
E em troca disso, o intercambiário aprende sobre a cultura chinesa, a língua nativa (mandarim) e sobre como negociar com o resto do mundo.

Motivo 4:
As famílias hospedam para dar às suas próprias crianças, uma experiência única, enriquecendo sua educação.
Lívia, por exemplo, foi para uma família hospedeira, perto de Boston, nos Estados Unidos. A família hospedeira aqui descrita, tinha adotado duas meninas quando estas meninas ainda eram bebês. Uma menina era brasileira e uma menina era chinesa.
Estas meninas  chegaram a adolescência e como foram tiradas de sua terra natal logo ao nascer, não sabiam nada sobre suas origens, a cultura de onde vieram.
Diante disso, a família decidiu hospedar uma estudante de intercâmbio brasileira para que a brasileira contasse tudo de Brasil para as meninas. E no ano seguinte, a família receberia em sua casa, uma estudante de intercâmbio chinesa.
A família hospedeira recebeu Lívia de braços abertos. Lembro-me que Lívia dançava balé no Brasil e quando chegou na escola americana, tinha jazz mas as americanas eram muito ruins ainda nesse tipo de dança/arte. Então, o pai hospedeiro levava a Lívia até a cidade nas redondezas aonde ela poderia praticar as aulas de balé, esperava no carro até a Lívia acabar e a levava de volta pra casa.
E foi desta forma, que ela foi descoberta pelo Bolshoi Ballet.

Motivo 5:
As famílias hospedam para dividir suas vidas com um estudante.
Juliana foi hospedada por uma família hospedeira que tinha uma adolescente diabética, obesa e que não gostava de sair de casa, com poucos amigos e que se julgava muito feia.
Juliana chegou na casa, se inscreveu num clube de viagens que tinha na cidade, inscreveu a irmã hospedeira também, fez com que a irmã entrasse e participasse de tudo o que ela entrava: jogos, dança, festas, assistir jogos, viagens... incentivou a irmã a fazer dieta.
Aos poucos, Juliana conseguiu transformar a vida daquela menina.
Tanto a família hospedeira como a irmã faziam tudo o que podiam pela Juliana, pois a mãe hospedeira dizia que por mais que ela se esforçasse, jamais conseguiria retribuir o que Juliana tinha feito pela família dela.
Juliana fez um intercâmbio feliz, intenso... e a amizade com a família hospedeira perdura até os dias de hoje.
Só uma observação... Juliana teve 3 famílias canceladas antes de embarcar para esta família... mas vou tratar disso (os cancelamentos e os imprevistos) num outro capítulo.
E por ciúmes, não deixou que o irmão Daniel fosse pra mesma família que um dia foi dela. Ela disse ao irmão na minha frente: “_esta família é minha, você que ache a sua.”

Motivo 6
As famílias hospedam para ter no estudante, um companheiro ou amigo após a saída dos filhos de casa, uma separação ou viuvez;
A família hospedeira do Felipe era um casal de aposentados. O casal tinha filhos, mas todos casados e com filhos também. Mas o casal sentia muita falta de ter filhos em casa e por este motivo hospedava estudantes de intercâmbio. Não preciso nem dizer o quanto este casal tratava bem os intercambiários, né? Basta dizer que todo mundo queria ir pra esta casa.



Eu costumo dizer que:
-  todo estudante de intercâmbio tem uma missão a cumprir no intercâmbio;
- e que cada estudante tem a família hospedeira que merece.

Ficou chocado(a)? Eu explico...
Já vi intercambiários levarem de volta a paz a uma família hospedeira no relacionamento entre os membros; já vi intercambiário aliviar a culpa de um membro da família; já vi estudante ajudar a família hospedeira em grandes projetos de vida; já vi de tudo um pouco:
Ricardo estava prestes a embarcar e ainda não tinha família hospedeira. Então, a família hospedeira chegou, e no profile da família dizia que Ricardo teria um irmão hospedeiro de outro país e que ia dividir o quarto com este irmão exchange student (espanhol).
Ricardo, assim que recebeu a informação de seu placement (informação da família hospedeira), ligou entusiasmado para a família hospedeira. No entanto, sua mãe de lá, ao atender, disse que não pretendia ficar com ele, que não estava nos planos ficar com dois intercambiários, que estava fazendo um favor pra coordenadora, pois as aulas estavam começando, o teatro na escola da região era muito bom, e a coordenadora queria muito que Ricardo fosse pra aquela escola, naquela região.
De fato, Ricardo adorava e era muito bom em teatro e a escola da cidade era espetacular, o grupo de teatro daquela escola era muito unido e a coordenadora queria Ricardo naquela área.
Ricardo ficou frustrado, porque já ao telefone tinha adorado a mãe de lá. Conversei com Ricardo e disse a ele: “ _Ricardo, embarca e deixa acontecer, não briga com o destino.”  E descolado que só ele, lá se foi ele pra Boston.
Ricardo chegou na família e conquistou o coração da família, conquistou seu espaço. Destacou-se na escola por conta do teatro e do seu jeito: sempre de bem com a vida, sem preconceitos, espontâneo, de mente e coração abertos.
Eu tinha certeza que isso aconteceria e a família que era pra ser apenas uma família temporária, tornou-se sua família definitiva.
Ricardo achava o pai hospedeiro calado e triste, sempre muito “na dele”. E passou a convidar o pai hospedeiro para correr com ele nos finais de tarde. Isso os tornou mais próximos, se tornaram amigos e o pai hospedeiro contou-lhe que...
- um dos seus filhos, não tinha nascido com as paralisias e problemas mentais, ficou daquela forma depois que ele (o pai natural) havia lhe administrado um medicamento, por ordem médica. O menino teve febre, foram ao médico, o médico receitou um remédio que provocou um efeito catastrófico no menino, com convulsões simultâneas, e a falta de oxigênio no cérebro levou às deformidades. E o pai se sentia culpado, pois foi ele quem deu o remédio ao menino.
Ricardo levou um tempo, mas com sua alegria e o seu jeito, fez o pai entender que ele não era o culpado e que ele deveria se aproximar do seu filho e ver daí para frente, viver daí pra frente. O resto era resto. Não tinha volta e se não tinha volta, melhor seria viver da melhor forma possível, que seria o jeito mais fácil de tocar a vida. Ricardo me dizia que a sensação de ter feito algo bom a alguém bom é indescritível e que levaria aquilo com ele pra vida toda.
Por isso digo, todo intercambiário tem uma missão no intercâmbio. Cabe a você descobrir qual será a sua. Descubra e faça sua parte, o melhor que puder.

E  o que eu quero dizer com CADA ESTUDANTE TEM A FAMÍLIA QUE MERECE...Note, isso não é uma “praga ou mardição que estou pinchando em você rsrs “ ...mas a família sempre invocará, sempre vai se aborrecer com seu ponto fraco...
Aonde eu quero chegar... que tudo aquilo que você faz que aborrece as pessoas, que enquanto estava aqui no Brasil podia morrer de falar que você não dava a mínima, no intercâmbio esta situação aparecerá e sua postura vai ter que ser bem outra.
Carlos era um menino muito folgado: foi o último a entregar o application, fez de qualquer jeito, relaxado consigo e com suas coisas, preguiçoso, não cumpria horários e nem obrigações.
A família dele era no Texas, em San Antonio. A escola estava numa área militar, então era uma escola militar. Tinha 2 irmãos menores. E a mãe hospedeira era só a sargento do exército americano.
A situação de maior estresse foi quando ele esmurrou e furou a parede. A mãe hospedeira fez consertar e pagar os consertos.
Vivia de castigo, pois chegava atrasado, não avisava. Então, algumas vezes eu escutava do Carlos: “_estou de castigo de novo.”
Carlos “pulou miudinho” mas ele me mandava fotos do quarto dele pra provar pra mim que não tinha neste mundo um quarto mais limpo e mais arrumado que o dele.
Ri muito quando ele escreveu pra mim assim: “_ to até com medo... tenho tomado banho todos os dias e até troco a cueca todos os dias. Você vai ficar orgulhosa de mim quando me ver de novo.”
Por outro lado, era a mãe que lhe mostrou muitas coisas interessantes, como o funcionamento do exército americano... era a que “intimava” a família e vizinhos a assistirem os jogos do Carlos, a que levou-o pra conhecer o México, etc.

 

FAMÍLIA: O QUE VOCÊ SABE SOBRE ELES
A  família, em especial a família hospedeira voluntária que não recebe ajuda de custo para hospedar e a família que recebe ajuda de custo (excluímos a família remunerada prestadora de serviços de acomodação) é selecionada, verificando sempre, o entusiasmo e interesse genuínos no estudante e seu país. Você não é um hóspede. Você é um membro da família, porém sem muitas informações por “ter perdido” a maior parte do que eles já passaram. Ou seja, você não viveu ali naquele ambiente até então, e você não sabe o que é importante para eles, o que eles comemoram, o que os deixa tristes, você não sabe nada.
Quando você preencheu seu application, você colocou suas melhores características, seus pais destacaram suas maiores qualidades, e você colocou fotos de momentos felizes e de diversão. Você, com certeza, não colocou uma foto de quando você estava dormindo e babando, ou tinha acabado de acordar e estava descabelado, nem foto “brigando” com seu irmão, também não colocou que reclama pra estudar, que faz coisas escondidas e outras mais.
Essas coisas, a família saberá, ou verá, somente quando você estiver lá, no seu dia a dia durante o intercâmbio.
A mesma situação se aplica a sua família hospedeira. Quando da entrevista e seleção das famílias, elas não são questionadas sobre o comportamento e temperamento de cada membro, e muito menos revelarão detalhes íntimos que você, morando na mesma casa, saberá.
Então, tanto os seus “podres”, como os “podres” da família, só vão aparecer durante o convívio. E tem, ah tem!
Então, vamos combinar:
- você preencheu uma documentação com informações a seu respeito para poder participar do intercâmbio e sua família hospedeira também;
- não existe família perfeita, assim como não existe intercambiário perfeito, senão não seria família e não seria intercambiário;
- mas é só a convivência que vai revelar se vai dar certo ou não....
É bom lembrar que o esforço de adaptação é de quem chega, e que você deverá ser uma pessoa de fácil convivência.

O melhor exercício para fazer é o da EMPATIA. Sempre que você achar que a família está errada, que não devia ter agido de tal forma com você, a primeira coisa que você deve fazer: COLOQUE-SE NO LUGAR DELES e se questione...algo como... se eu tivesse um intercambiário na minha casa e fizesse o que eu acabei de fazer agora com os meus pais, como eu e meus pais reagiríamos?
A família hospedeira espera que você:
- observe e aprenda como uma criança, mas sem agir como criança;
- seja independente;
- seja direto;
- seja amigo;
- mostre respeito;
- seja educado;
- respeite as regras da casa;
- peça ajuda quando precisar;
- não transforme a casa deles num albergue;
- não fique muito tempo no computador ou no seu quarto e passe algum tempo com eles
- participe da vida da família.

Famílias são intolerantes com falta de respeito.
Lucas foi para o high school mas seu pai natural havia vendido alguns bens para tornar essa experiência possível. A família hospedeira em Seattle tinha a casa dos sonhos, era a família dos sonhos. A mãe hospedeira comprou todas as roupas de inverno para Lucas, comprou sapatos, material escolar, coisas para prática de esportes. Um belo dia, a mãe hospedeira pediu ajuda ao Lucas para retirar alguns vasos do jardim e colocar para dentro de casa, para que o frio não estragasse as plantas. Lucas se recusou a ajuda-la. A mãe ligou para a coordenadora e pediu que retirasse Lucas da casa, pois acabara de descobrir que ele era um ingrato. E a mãe relatou outros episódios anteriores, este foi somente o último. Depois disso, Lucas ficou na casa da coordenadora e a coordenadora arrumou outra casa pra ele. No entanto, a partir daí, o intercâmbio “não deu mais certo”... Lucas queria ter na nova família hospedeira, a situação que tinha na família anterior, na primeira família do intercâmbio e isto fez com que seu intercâmbio ficasse como ele disse “sem graça”.
Ou fato semelhante a este, aconteceu com o intercambiário André. A mãe hospedeira chamou sua atenção por coisas erradas e descumprimento de normas e ele virou as costas e saiu andando. A coordenadora contou que a mãe hospedeira disse assim ao telefone:
“ _ Coordenadora, quando tempo você leva para chegar da sua casa até a minha?
A coordenadora respondeu que demoraria uns 15 minutos. E a mãe hospedeira retrucou:
“ – Em 15 minutos, eu arrumo as malas dele e ele estará na porta da minha casa esperando por você. Aqui eu não quero mais. Nem meus filhos me faltam com tanto respeito.”


Ah, mas na minha família hospedeira só tem criancinhas, eles não tem nada a ver comigo, como podem ter me escolhido pra morar com eles?
Quando eu pergunto nas reuniões.... "_ Futuros intercambiários,  o que seria uma família hospedeira ideal pra vocês?"
E eu escuto cada coisa:
"_  Eu queria ter uma irmã gostosona." 
" _ eu queria ter um irmão gato."
Tome tento! Molecada! E cuidado com um negócio chamado assédio.
Amiguinho, o seu irmão da sua idade pode ser um porre! Tá ligado! A tua irmã hospedeira pode te ignorar e pronto.  Faz um favor? Vai no Youtube e assiste a série “Aliens in América”. Vai entender o que eu estou falando.
Não existe uma situação perfeita, ou ideal. Você pode achar que ter uma família hospedeira que tenha adolescentes e irmãos da sua idade seja mais vantajoso do que uma outra família com crianças, por exemplo. Qualquer que seja a situação, aproveite os lados positivos.
Ter irmãos adolescentes pode ser uma vantagem, eles podem sim se tornar os seus amigos no intercâmbio, mas também podem ser os primeiros a ter um certo ciúme de você e da atenção que você está atraindo pra você. Uma outra coisa é que muitos adolescentes trabalham. Preconceito de profissão é uma coisa de Brasil. Os países que comumente são receptivos de intercambistas, são países que não tem nenhum preconceito de profissão e muitos adolescentes trabalham meio período como garçonetes, caixas, babysiter, entre outros.
E se tiver crianças? A criança vai encher o saco, óbvio. Talvez você tenha que fazer o papel de irmão mais velho, como por exemplo, ficar com a criança pra mãe ir a um compromisso, assim como seria sua casa no Brasil. No entanto, a criança é a única pessoa que vai lhe corrigir se você falar errado. Tem criança que coloca etiqueta nomeando coisas que você nunca aprendeu a falar como maçaneta, torneira, vaso sanitário, geladeira, etc. Então, quem tem uma criança na família hospedeira acaba “aprendendo” o idioma do país mais rápido, no entanto, vai ter que dedicar uma parte de seu tempo para brincar, conversar, montar quebra-cabeça com essa criança.
Assim como, estudantes que são colocados em famílias sem filhos, ou só uma mãe, ou só um pai, recebem mais atenção do que um adolescente que foi pra uma família com mais membros. São pessoas que tem um tempo maior para conversar, passear e dividir experiências.

MAS POR QUE EU NÃO TENHO FAMÍLIA HOSPEDEIRA AINDA? EU FUI UM DOS PRIMEIROS A ME INSCREVER. O QUE TEM DE ERRADO COMIGO?

Mas...por que a informação da minha família não chega nunca?

O que tem de errado comigo?
Todos os meus amigos já tem família hospedeira, já sabem para onde vão, menos eu e todo mundo "tira uma com minha cara"...

E se alguém de alguma organização X ler o meu texto abaixo, vai me chamar de preconceituosa, e etc. Mas não sou... simplesmente a gente tem que se colocar no lugar de quem hospeda, a tal da empatia, lembrar que quem hospeda tem receios por nunca ter convivido com a pessoa e não saber da cultura, nem como foi educado, as manias, sabem nada do passado e etc. 

São vários os motivos para a demora da chegada da informação da família hospedeira:

1) se você estiver indo para Canadá, por exemplo, é bem possível que sua família hospedeira seja uma família que hospedou no último ano letivo e a informação da família chega mais próximo ao embarque. Ou seja, esperam o término de uma temporada para enviar a informação das famílias de quem vai embarcar para a próxima temporada. A mesma regra se aplica a Nova Zelândia, Austrália, Irlanda, Inglaterra.

2) as vezes, uma informação que você colocou no seu application pode ser decisivo para a rapidez ou demora com que você seja colocado:
- lembro-me da mãe do Leandro pedindo a ele que cortasse o cabelão pra colocar as fotos no application, mas o Leandro não quis cortar o cabelo... pôs todas as fotos com o cabelão. Pra piorar ainda mais a situação, Leandro era vegetariano, roqueiro, baterista de banda, diabético. Mas tinha um humor e uma sensatez que só ele. E não é que a família dele chegou logo e foi “A FAMÍLIA” pra ele: o irmãozinho postiço hospedeiro adorou o cabelão do Leandro, o irmãozinho também era roqueiro e tudo o que ele queria era um irmão roqueiro. Implorou para a mãe hospedar o intercambiário Leandro e a mãe hospedeira gostou da idéia. E pra ajudar, não é que a família era vegetariana?!
- a Karen, uma outra intercambiária, fez um application genial, no entanto, deu ênfase demais a religião, colocando coisas como..."sempre que temos que decidir um assunto...eu e minha família oramos e pedimos a resposta a Deus"...até aí nada de errado, se não fosse o tanto de vezes que ela enfatizou isso. Acabou passando a imagem de uma fanática religiosa. E este foi o motivo da demora na colocação. O intercâmbio de Karen, o destino era a Alemanha e os alemães não são religiosos.

E não tem a ver com estampa física da pessoa...por exemplo:
Guilherme, um intercambiário lindo, fisicamente muito bonito, foi o último da turma a ter família. E a família era 10. Guilherme adorava futebol, jogava muuuuito e o pai hospedeiro era o treinador do time da escola, os 4 irmãos também jogavam futebol. Lembro-me que a família do Guilherme chegou num dia, pedindo embarque para o mesmo dia, pois ele precisava estar lá no dia seguinte para um acampamento com o time da escola. E chegar num intercâmbio assim facilita muita coisa... esportes facilitam tudo. Às vezes, os belos fisicamente, inibem famílias que tem meninas da mesma idade. O menino brasileiro tem fama, e é fama de Don Juan e nas famílias mais conservadoras que tem meninas em casa, o pai hospedeiro pode "implicar" com este tipo de colocação e só aceitar hospedar meninas, por exemplo.

Mas existe a situação contrária também... já vi famílias hospedeiras cheias de meninos, com vontade de ter uma filha menina e hospedaram uma menina e muito bem. E o contrário também... uma família cheia de mulheres que decidiu hospedar um menino. E quando questionei o motivo, a família austríaca que era a que só tinha mulheres na casa respondeu: "_ a gente não aguenta mais ver tanta calcinha no varal...o nosso varal precisa de uma cueca." Algumas coisas curiosas dessa colocação (menino com um bando de meninas), não pense você que ele tinha regalias na casa por conta disso. Nada disso: ele dividia as tarefas domésticas com as meninas e participava dos afazeres tanto quanto elas. O curioso é que na casa não tinha televisão e isso era opção. A família decidiu não ter TV em casa porque não achava útil, porque em vez de assistir TV, preferiam um bom papo de família.

Uma outra situação que vi a demora em vir a família hospedeira foi uma adolescente chamada Mariza, que escreveu no application, que quando tinha problemas, resolvia sozinha, se trancava no quarto e chorava muito, mas não contava pra ninguém. As famílias candidatas a família hospedeira ficaram receosas em hospedá-la com medo que ela passasse por uma situação complicada no intercâmbio, de urgência ou de emergência, grave e que não contasse a ninguém.

Os alérgicos precisam entender que: todo mundo é alérgico a alguma coisa neste mundo em que vivemos e a esta altura do campeonato. Então, se você é alérgico a pele e pelos de animal, carpete, tapete, pó, picadas de insetos e outros bichos, não precisa enfatizar na sua informação e nem precisa criar uma história alarmante em cima disso. Só coloque se você perde a fala, fica sem ar, entra em coma e tem que ser internado em hospital. Caso contrário, não é grave e qualquer antialérgico resolve.
Então, leve seu remédio antialérgico na viagem e não crie caso por conta disso. Essa mania que brasileiro tem de ficar relatando isso é uma das coisas que mais assusta as famílias hospedeiras e elas perguntam: "_tá, mais o que eu faço com o intercambiário, encapo, passo um filme plástico igual de malas? ele é alérgico a tudo, não tenho uma casa adequada para hospedar nesta situação e vou arrumar problemas."

Outro caso de demora para chegada da informação da família....
Uma vez, um intercambiário chamado Álvaro, que media 2m X 2m se inscreveu no programa de high school e se inscreveu tarde. Quando eu recebi o application do Álvaro, eu imediatamente liguei para Álvaro e eu disse:
"_ você é gordo e grande, e você colocou 7 fotos no seu application e em todas as fotos você está comendo... e no estilo "boi com pão", tem certeza que vai mandar um application assim?"
Então, Álvaro me explicou que não teria condições de me mandar novas fotos a tempo do prazo que tinha para entregar a documentação e não tínhamos outra saída, a não ser enviar as fotos do comilão.
Todo mundo da turma foi colocado, e o Álvaro sem família hospedeira.
Então, ele me ligava e dizia:
 "_ Pê, ninguém me quis ainda."
e eu dizia...
"_não né Álvaro, com aquelas fotos que você colocou, quando alguém vê aquilo, na mesma hora desiste de você,"
Entrou setembro e o Álvaro ainda estava sem família. E eu consolando o Álvaro...um dia colocava-o no colo e no outro esculhambava com o coitado.
Até que na véspera do feriado de 7 de setembro, chegou a família hospedeira do Álvaro e eu enviei as informações pra ele.
Isso já faz muitos anos, mas até hoje lembro da voz de felicidade dele ao telefone...
_"Pê, você viu que família genial que veio pra mim...olha,  eu vou pra Califórnia, tenho irmãos, vou pra Lompoc, que é a cidade das flores, meu pai americano trabalha na Nasa, tem um bando de cachorro na casa e eu amo cachorro. Que perfeito! Está vendo só e você disse que eu não ia ter família nunca com aquele meu álbum de fotos"
Então, eu lhe disse..
"_Alvaro, você não leu a nota no quadro no final da página né... no quadro de observação está escrito que sua mãe hospedeira é cega. Portanto, ela não viu suas fotos e por isso ela está te hospedando."
Nós rimos muito. De rolar! De chorar!

Álvaro tinha um coração tão gigante quanto ele e se deu muito bem no intercâmbio:
- a mãe hospedeira era cega de nascença e treinava cães guias, tinha uma "empresa" pra isso;
- a avó morava na casa para auxiliar a mãe e colocou o Álvaro de dieta, nem deixava o Álvaro levar dinheiro na escola pra não comer porcaria... ela fazia uma lancheira pro Álvaro com frutas, suco e lanche light;
- o pai hospedeiro corria 7 milhas todos os dias às 5h da manhã e o Álvaro passou a ser sua companhia nas corridas, pois era o horário que eles conseguiam conversar e trocar umas ideias;
- Álvaro comprava quebra-cabeças para montar com as crianças e se divertia com elas, mesmo as crianças sendo meio chatinhas, segundo ele, crianças mimadas americanas.
Resultado: a família hospedeira pediu para o Álvaro ficar mais um semestre com eles. Álvaro não ficou porque os pais brasileiros, naquela ocasião, não permitiram, por motivos pessoais.
A amizade entre eles dura até hoje.
E não é que Álvaro emagreceu no intercâmbio e voltou moço bonito! É o único que eu tenha notícia que emagreceu durante intercâmbio. A maioria engorda, em média, 15 kg.

E tenho ainda mais histórias para contar, mas antes de continuar, o que fica de lição disso tudo até agora: as famílias querem uma pessoa QUE SEJA FÁCIL DE LIDAR, a tal da EASYGOING, alguém que acrescente algo novo e bom na vida da família, não importa se você é feio ou bonito, rico ou pobre, a cor da sua pele, religião, nada disso importa...importa que você seja de fácil convivência e que carregue bagagem na mente e no coração.

TÔ DESESPERADO(A)...NÃO TENHO FAMÍLIA AINDA


Durante esses anos todos, vi acontecer algumas coisas que me chamaram muita a atenção e venho aqui defender a idéia de que:
- não importa se a informação da sua família hospedeira chegou há tempos, ou se acabou de chegar ou se ainda nem chegou... ou então se chegou e mudou. Isso não quer dizer muita coisa, ou melhor, quer dizer nada.

Já vi estudantes que, durante meses, se comunicaram com a família antes de embarcar...e enquanto não conviviam juntos, tudo era lindo. Estavam "apaixonados" , família e estudante. Mas que a convivência não deu certo. Só se conhece o temperamento de uma pessoa convivendo com essa pessoa, não tem outro jeito.

- assim como, vejo que quando chega a informação da família hospedeira, as mães naturais tem o hábito de perguntar se alguém já ficou naquela casa, se poderia conversar com a pessoa, etc. A experiência de uma pessoa numa casa não tem nada a ver com a experiência de outra pessoa na mesma casa, na mesma família: mudou o estudante, muda tudo. E o tempo passa pra todo mundo. Um estudante pode ter ido para uma casa que naquele momento vivia uma fase de vida muito boa, e um outro estudante pode ir para a mesma casa num momento já de dificuldade em família, com a família mais sensível, ou mesmo, com o passar dos anos, as pessoas envelhecem, amadurecem e mudam.

Não é nada fácil arrumar família hospedeira:
- dentro das exigências e regras do programa, do curso ou da escola;
- dependendo do tipo de programa escolhido, a família é voluntária sem ajuda de custo pela hospedagem;
- tem que considerar que a família tem seus receios, abrir a intimidade de uma família a um estrangeiro não é um exercício simples de se fazer;
Digo este último porque percebo que muita gente manda filhos para viver em outra família e em outro país, mas não tem a mesma coragem de receber um outro estrangeiro na mesma situação ou num programa de intercâmbio em sua própria casa.

Lembro-me da seguinte situação: a família de Pietro chegou e ele embarcou de imediato. Na escola estrangeira foi feito o teste da urina e foi encontrado os indícios da droga nos exames do Pietro. Depois de muito conversar com o diretor da escola, Pietro disse que na festa de despedida do Brasil havia usado drogas.
O diretor da escola chamou a família hospedeira e disse a mãe hospedeira: "_ se você decidir que vai ficar com este adolescente usuário de drogas na sua casa,  aí eu deixo que ele permaneça na minha escola, desde que nos próximos testes, os níveis da droga tenham diminuído. Mas se você, decidir não colocar sua família em risco, e decidir que não poderá ficar com o menino por ser uma má influência para os seus outros 4 filhos, então, eu vou expulsá-lo da minha escola e ele deverá retornar ao Brasil."

Esta não é a única situação em que a família hospedeira fica com a parte difícil da decisão. Outro exemplo:  Melissa foi presa por furto. E somente as palavras do pai hospedeiro é que convenceram a corte a não cancelar o visto e deportá-la. A pena foi trocada por serviços voluntários a serem prestados pela adolescente até o término do programa.

Muitos estudantes conseguem a informação de sua família de véspera.
Felipe tinha uma informação de família. Na hora que eu fui para o aeroporto para embarcá-lo, chegou uma nova informação de família, cancelando a anterior. E enquanto ele voava para o destino, esta segunda família hospedeira foi cancelada e ele foi para uma terceira família hospedeira. A 3a. família hospedeira tinha a missão de buscá-lo no aeroporto e dar a notícia. E Felipe encarou numa boa. Nas últimas 24 horas, ele havia tido 3 famílias hospedeiras, mas apaixonado por voleibol que era, não poderia ter sido colocado numa situação melhor que aquela. Fez um intercâmbio feliz e bem-sucedido. Aliás, ele é muito bem-sucedido hoje em dia também.

Alan desejava muito ser colocado em fazenda, pois durante a vida toda, sempre viveu em fazenda. Era tímido, falava pra dentro, quando falava. Tinha hábitos um tanto broncos, devido tamanha simplicidade. A família hospedeira chegou e era um rancho no Texas, numa fazenda enorme que criava muitos animais.  Eu embarquei o Allan a noite e no outro dia pela manhã, tive a seguinte notícia:
_ que o Alan não seria mais colocado na família dos sonhos, pois o pai hospedeiro teve um AVC e toda a família estava no hospital. Que a família pretendia sim hospedar o Alan, mas que naquele momento e naquela situação seria impossível. A coordenadora dizia que ela tinha uma família de confiança em Columbus, e que eram amigos pessoais dela e que ela estaria colocando o Alan hospedado lá. E que ela seria a portadora de todas essas notícias assim que Alan desembarcasse.
Conhecendo Alan como eu conhecia, fiquei preocupada. O começo do intercâmbio do Alan foi um pouco tumultuado: ele passou os primeiros dias querendo que a família hospedeira do rancho se resolvesse e que ele pudesse ir pra lá.
Mas a atual família hospedeira, que era composta de mãe, filho adolescente e o namorado da mãe eram extremamente atenciosos com Alan.
Eles não só hospedaram o Alan, mas deram suporte e carinho. Alan se envolveu com esta família e quando a família do rancho se recuperou e buscou pelo Alan, ele não quis mais sair da família de Columbus, da cidade grande.
Quando falei com a mãe natural do Alan, achando que ela estaria brava e descontente com esta situação, ela me disse: "_ Pê, não poderia ter acontecido coisa melhor pro meu filho: ele é outra pessoa e ela caiu na gargalhada e disse, agora ele é civilizado. Vive em cidade, perdeu a timidez, aprendeu a falar, tem uma outra postura. Eu agradeço a Deus e a você por tudo o que aconteceu ao meu filho. Se não fosse tudo isso, eu ainda teria aquele bananão. É o que eu sinto. O que aconteceu ao Alan, foi a melhor coisa que aconteceu no intercâmbio dele, e até na vida dele."
Daí alguns anos, Alan apareceu na minha frente e trazia consigo o irmão adolescente: "_Pê, agora é a vez do meu irmãozinho... manda ele pra mesma família que eu permaneci?"
Foi muito gratificante, muito mesmo, ver os meninos e ver passarem por esta experiência.
E deixo claro que o Alan se inscreveu para intercâmbio dois anos antes do embarque, isso mesmo. Quando ele se inscreveu, eu o recusei, porque ele tinha um boletim escolar de chorar e um nível de inglês pior ainda, ele esperou mais um ano pra embarcar e mesmo assim, teve família na noite do voo.

Deu pra entender a mensagem que eu quero passar a vocês?
Relaxem e confiem em quem você elegeu pra organizar o seu intercâmbio. Vá de mente e coração abertos pra onde quer que seja, para onde quer que vá.  É você que vai fazer a diferença! É você quem chegou. Todo o resto sempre esteve lá. E quem chegou é quem muda! Muda uma vida, muda uma história, faz a lenda.

Uma das perguntas que assombra o novo intercambiário, principalmente os que embarcam na idade da adolescência,  é:
- como devo tratar minha família hospedeira, devo chamá-los como?
- Preciso chamar meu pai hospedeiro de pai?
- Preciso chamar minha mãe hospedeira de mãe?
- E os meus irmãos de lá? Como deve ser o tratamento para com eles?

Calma, tá bom?!
Quem tem que responder isso são eles e não você.
Você só tem que fazer a pergunta, entendeu?

Simples assim: pergunte aos seus pais hospedeiros como eles gostariam de ser chamados por você. Muito provavelmente, a resposta que você vai ouvir será que eles preferiam que você os chamasse pelo primeiro nome.
E a evolução normal disso é chegar a um nome mais curto, um apelido.
Com os seus irmãos hospedeiros, o procedimento é o mesmo.

Ninguém vai te obrigar a chamar de pai ou de mãe. Pode ser que você nem consiga dizer isso a pessoas que não são seus pais de verdade. Por outro lado,  o seu tratamento para com eles pode evoluir de uma forma que, quando você se der conta, percebe que já os chama de pai e de mãe, só não sabe exatamente quando isso começou a acontecer.
Mas também, pode ser que você passe o intercâmbio todo sem que isso tenha acontecido.

Alguns jovens tem medo do ciúmes do(a) irmão(ã) hospedeiro(a). Pois digo que isso é uma coisa que você precisa aprender a lidar e sim, quem tem que ceder e ser o humilde é você, que é quem chegou.

Por que digo que tem que aprender a lidar? Não pode trocar de família por causa do ciúme dos irmãos hospedeiros? Como assim?
-  note, se você tem irmãos no Brasil, até já sabe - ciúme é comum até entre irmãos de sangue, que nasceram da mesma mãe, na mesma casa, vivem na mesma cultura e com os mesmos hábitos...

- que dirá em outra cultura, aonde o mocinho é seu irmão, mas nem tanto assim.
- ou seja, se é normal sentir ciúme até entre "irmãos de sangue", que dirá entre"irmãos postiços"?
- é comum até entre amigos;
- e mais cedo ou mais tarde, na vida,  você vai se deparar com situações deste tipo e precisa amadurecer e lidar com isso.
- como lidar? simples... não dê tanta importância para uma coisa sem importância. Releve, deixa pra lá, e olhe a parte boa da outra pessoa. Ignore o que não é bom. Explique para o ciumento que se ele estivesse fazendo intercâmbio no Brasil e na sua casa, os seus pais estariam dando mais atenção a ele do que a você.
- assim dá certo.

Um caso interessante foi um menino que me contou que chamava os pais hospedeiros pelo nome, mas num determinado momento do intercâmbio, o irmão hospedeiro pediu que chamasse os pais de pai e de mãe. E foi o que o intercambiário fez: atendeu o pedido do irmão hospedeiro e passou a chamar a mãe de lá de "mom" e o pai hospedeiro de "dad", assim como toda a família.

Uma coisa que é interessante você observar é como os membros de sua família hospedeira te apresentam aos amigos e ao restante dos parentes/da família:
- se é como intercambiário do Brasil;
- se é como filho postiço ou um filho brasileiro.

Carine foi hospedada por uma família numerosa, 6 pessoas (pai, mãe e 4 irmãos). Era uma família afrodescendente (negros) e ela era quase albina. E o mais engraçado era como a família hospedeira a apresentava:
 "-esta loirinha do Brasil é nossa filha, só que nela, a cor falhou! saiu assim...descolorida, desbotada."

Uma família muito bacana, com um bom humor maravilhoso. E ainda de diferente: todos os filhos eram homens crescidos, jogadores de basquete com quase dois metros de altura e queriam ter uma irmã a todo custo. E Carine passou um ano espetacular e sendo bajulada por todos. No final daquele ano de intercâmbio, foi pedido a cada intercambiário que escrevesse uma mensagem para a família hospedeira e baseado nesta mensagem, seria eleita a família mais bacana do intercâmbio. E a família da Carine é que foi eleita a mais bacana do ano.







Então,  entenda:
- o maior “problema” que você vai ter no intercâmbio se chama família hospedeira;
- a melhor parte do seu programa de intercâmbio será esse problema;

- e sentirá bastante falta deste problema por muitos e muitos anos.

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