domingo, 6 de maio de 2018

As fases do intercâmbio - choque cultural - homesick




Quem decide ir para um intercâmbio passa por várias fases... vamos conversar e ver em qual você se encontra...rsrs

FASE: PROCURANDO SARNA PRA ME COÇAR
- a escolha do programa é a primeira parte: decidir qual intercâmbio fazer, com qual agência, pra onde ir, quando, o objetivo que se deseja alcançar, o ajuste dos desejos ao que se pode pagar, o ajuste do que você deseja com o que desejam pra você e assim por diante.
- depois disso, vem toda uma parte burocrática, que é a parte de preenchimento dos papéis, entrevistas, testes, fotos... mas que são indispensáveis e extremamente importantes para todo o restante do seu intercâmbio. Muita coisa do que acontece com você, antes-durante-depois do seu intercâmbio é pura e simplesmente a consequência dos seus atos nesta fase. Ainda nesta fase vem a parte de passaporte, visto, transferência de escola.
- e tem toda uma parte de preparação: esta parte é essencial para uma experiência bem sucedida. Quanto mais expectativas realistas você tiver sobre o seu programa, menos “sofrerá” com o choque cultural. Nesta fase vale tudo. Vale:
1) conversar com quem já foi;
2) ler livros e matérias sobre o assunto;
3) assistir vídeos que relatem determinadas épocas/acontecimentos/costumes/hábitos do lugar para onde se está indo;
4) participar das reuniões de orientação que a sua agência promover;
5) ler o meu blog (rsrs) ou ler blogs de quem já foi ou está no intercâmbio;
6) buscar todo tipo de informação, para estar afinado com leis, costumes, hábitos, história, educação, cultura a respeito do seu destino.
No entanto, precisa saber filtrar as informações que lhe forem passadas. Note que quem mais fala mal de intercâmbio e quem mais conta situações absurdas é exatamente quem tem pouca informação sobre intercâmbio ou quem nunca foi/fez.
É bem provável que tudo isso te remeta a uma outra fase do programa, que são umas famosas reações antes da partida, que a maioria dos futuros intercambiários tem.


FASE: E ENTÃO VOCÊ ESCUTA: "VOCÊ FICARIA BEM MAIS SIMPÁTICO SE FOSSE TRANCADO NUMA GAVETA" "ADORO QUANDO VOCÊ DORME"
A ansiedade vai tomando conta e você costuma ter algumas reações estranhas antes de embarcar. Você que evai embarcar para intercâmbio nem percebe, mas quem fica aqui, esse sim, vai percebendo sua mudança. E este que fica aqui vai se questionar se fez a coisa certa ao incentivar você a fazer tudo isso. É porque, meu amiguinho, nesta fase, você vira um porre.
Algumas reações comuns antes da partida, exemplos:
Exemplo 1: o adolescente, candidato ao programa de high school, nunca nem soube aonde era a feira aos domingos, mas do nada, um belo domingo de sol, decide acompanhar a mãe a feira e ajudá-la com as compras;
Exemplo 2: começar a perguntar para os outros irmãos o que eles vão fazer na sua ausência. Querido(a), não faça isso, pois você vai ouvir coisas assim: “_não vejo a hora que você embarque e deixa aquela sua bicicleta só pra eu usar” ou então “_o seu computador vai ficar pra mim, quando é mesmo que você embarca?” ou “_vou me mudar para o seu quarto que é mais espaçoso que o meu” ou “_vou colocar o meu celular para fazer contar regressiva, não vejo a hora que você se mande.”... depois, um dia, depois de uns 3 meses que você estiver fora, o seu (a sua) irmão (ã) vai lembrar disso e vai ficar com muito remorso... então, nem liga, ok? Deixa falar a vontade... e melhor ainda, não faz a pergunta besta.
Exemplo 3: ver mais fotos e passar mais tempo procurando por recordações...ao estilo "forever alone".
Exemplo 4: fazer chantagem com os pais, com namorado(a) ou pessoas queridas... algo como... “_é né, vocês não estão se importando porque eu vou estar fora tanto tempo, parece até que estão gostando” e acredite, se você estiver com 36,5 graus de temperatura, você vai cair de cama e vai achar que está morrendo, só pra chamar a atenção pra você. Amigo(a), febre é a partir de 37,8 graus, ok?
Exemplo 5: se afastar das pessoas que mais gosta pra ir se acostumando a ficar sem elas. Bobagem! Isto sim que é sofrer por antecipação e não leva a nadica.
Exemplo 6: impressionante o tanto de gente que aparece te dando bola/mole nesta fase, só porque você vai embarcar... é muito fácil arrumar namorado ou namorada nesta fase. Mas por favor, não invente de querer nada sério, pro seu bem.
Enfim, sabe qual o meu melhor recado pra você? Aproveita que você está nesta fase e grude muito nas pessoas que você gosta e que vai sentir falta: beija, abraça, deita no colo, passeia junto, conversa, ri- mas ri muito, e embarque com essa lembrança boa, pra sentir saudade dessa lembrança boa. Combinado?

FASE: PARTIDA E CHEGADA/EMBARQUE/DEPARTURE
A partida... .
Prepare a sua despedida do Brasil.
A despedida vale muito a pena: é coração numa mão e documento na outra.
Por que a despedida vale a pena? Porque é uma forma de consideração com quem está ficando, de ter boas lembranças quando a saudade apertar e é uma forma de estar ao mesmo tempo com todos que você gosta. Então, faça festa de despedida, faça bota-fora, faça mesmo. Alugue ônibus para levar seus amigos para o aeroporto pra se despedir de você. E curta, tire fotos, aproveita.
E vale a pena lembrar que quem fica também vai um pouco: torce junto, se preocupa junto, vibra e se emociona. E vale chorar, mas de emoção.

O que você precisa pra embarcar: 
- do passaporte (e visto, se aplicável);
- documentos da escola/organização estrangeira;
- um documento de identidade aonde conste o nome dos pais;
- autorização de viagem, se menor de idade;
- carteira de vacinação;
- seguro-saúde;
- dinheiro e cartão de crédito/débito;
- o número da sua reserva ou o seu ticket de viagem;
- as malas;
- o ideal seria que levasse uma mochila como valise de mão, desta forma suas mãos estariam livres e vista roupas e sapatos confortáveis (leve uma blusa de frio); 


Muita gente se preocupa com o que vai colocar na bagagem:
- não tem uma lista ideal do que colocar na mala...
- coloque um pouco de tudo e sem exageros; principalmente se você vai ficar um longo tempo no intercâmbio. 
- evite roupas com decotes, transparências, curtas demais e etc.

Algumas coisas que você precisa saber:
Você perderá peso nos primeiros dias, mas vai encontrar esses quilos todos tudo de novo e em dobro nos próximos dias.
E o que você levou de roupa, em uns 3-4 meses já não entram mais em você e se entram, já estão bem gastas.
A outra coisa é que o lugar para onde você vai, o clima é outro, a moda é outra, o estilo é outro e o uso de suas roupas que aqui é normal, lá pode ser inadequado e você pode ser mal interpretado.

Então, vamos combinar? Nada de neura com a mala. Põe o que você gosta e um pouco de tudo. E não muita coisa. 

E aprenda algumas coisas:
1) a manusear a máquina de lavar e a secadora, 
2) a ler instruções de lavagem nas etiquetas das roupas...pois com certeza, durante o intercâmbio, você será responsável por cuidar de suas roupas. 
3) tente manter suas mãos livres, então prefira mochilas do que bolsas... Verifique se consegue levantar as suas malas do chão...depois que você entrar na sala de embarque, a partir daí, você estará sozinho e ninguém mais vai ter ajudar a carregar suas malas. Entendeu? 

Coisas que jamais você deve fazer próximo a sua despedida ou no dia do embarque: 
- não brigue nem magoe pessoas queridas; 
- grude nas pessoas que você gosta; 
- não fique noivo(a) de ninguém e nem faça promessas relacionadas a isso. É furada! 
- não se prive de coisas ou pessoas pra ver se você consegue ficar sem isso ou aquilo durante um tempo e assim ficar “se testando” pra checar se isso vai dar certo no intercâmbio... são situações diferentes...não dá pra fazer esse tipo de comparação.
- explique pro seu cachorro o que vai acontecer nos próximos tempos e leve-o pra passear bastante.
- não faça escândalos no dia, é ridículo. 
- não seja indiferente com pessoas que querem o seu bem.
Enfim... faça do seu dia da partida ..UM ACONTECIMENTO... porque é um acontecimento.

CHEGADA/ARRIVAL
Você já imaginou a sua chegada no seu país de destino?
Como você acha que será?
Existem histórias e histórias sobre isso.

O normal  é o futuro intercambiário imaginar que toda a ansiosa família hospedeira estará esperando por ele no aeroporto, e que ele será recebido com abraços e beijos. E que esses novos ETs serão prestativos e farão perguntas gentis para que se sinta “em casa e a vontade”... que eles te receberão e exibirão você como um troféu pela cidade, aos amigos e parentes e que talvez você vire uma estrela.
Então, vamos voltar pra realidade: você não está chegando no Brasil, você está chegando no país do seu intercâmbio e não convém fazer planos pra sua chegada lá. Simplesmente deixe acontecer.
Vamos imaginar a seguinte situação: você deixou o Brasil, entrou no avião, chorou feito um bocó, ficou com olhos vermelhos e rosto inchado. O avião é algo totalmente desconfortável e não sei por que ainda este tipo de transporte não é feito por nave espacial: teria janelinha pra todo mundo e muito mais espaço.
Então, você viajou horas e horas, passou uns lencinhos umedecidos numas partes se o voo foi longo, está com bafo, descabelado, cansado e meio que não acreditando que você inventou tudo aquilo pra você. Neste momento, você já se odeia: “_ aonde eu estava com a cabeça quando decidi fazer intercâmbio... alguém pode me responder? Bem que minha mãe sempre me disse que eu tinha umas ideias de jerico.”

Não convém alimentar expectativas porque:
- a tua família hospedeira pode ter imprevistos, ou compromissos inadiáveis para o dia de sua chegada e pedir para um amigo de confiança da família ir buscá-lo no aeroporto;
- pode ir somente sua coordenadora ou um serviço de transfer contratado;
- pode ser só o seu irmão mais velho, o de lá.
- assim como pode estar presente a escola toda lá no aeroporto te esperando porque eles acham que você pode salvar o time do rebaixamento;


Já escutei estudantes contarem as seguintes histórias de chegadas:
História do Caio: Liguei pra minha família hospedeira avisando que ia chegar em tal voo e tal horário e o meu pai de lá disse que estaria me esperando. Quando desci do avião e peguei minhas malas, fiquei olhando a procura de quem seria o meu novo pai e o único ser que eu jamais supunha, um senhor idoso, com uma bengala, obeso ao estilo americano, sentado esbugalhado num banco do aeroporto... aquilo era o meu pai hospedeiro... que simplesmente se aproximou de mim e disse: você é o Caio? E quando ele se aproximou, eu ainda descobri o porquê da bengala. Mas depois que o assombro passou, eu descobri que ele era um cara genial.

História da Fábio: a minha família toda foi me receber no aeroporto e eles não eram ricos, mas eles alugaram uma limusine para me levar (junto com eles) do aeroporto até a fazenda. Minha família morava na zona rural. Minha família tinha 5 filhos, 2 da minha idade e 3 crianças. E no caminho pra casa, as 3 crianças sentaram do meu lado na limusine e falaram muito comigo, me fizeram perguntas que eu nem lembro, pois eu estava cansado demais pra pensar. Mas nunca me saiu da cabeça, o sorriso, o contentamento, a ansiedade daquelas crianças. E durante o meu intercâmbio, eles realmente viraram meus irmãos, tanto que a gente até se pegava nos tapas.

História do Diogo: Eu não tinha visto fotos da minha família e perguntei quem iria me buscar no aeroporto e minha mãe de lá disse que estaria no aeroporto. Então, eu perguntei: e como eu vou saber que é você. E ela me disse: "_eu estarei com um sino e eu te conheço, eu vi fotos, então, a hora que eu te ver, eu vou bater o sino".Eu nem preciso dizer a vocês que isso realmente aconteceu e que eu só não saí correndo porque ali naquele lugar ninguém sabia quem eu era.

História da Juliana: Cheguei na Nova Zelândia e todo mundo sabe que eu sou atrapalhada. E veio um senhor falar comigo, com uma placa de coordenador de intercâmbio na mão, e me disse algumas coisas que eu não entendi.  Acompanhei-o até o carro, entrei no carro e ele falava muito e eu entendia nada. Mas alguma coisa estava muito errada. Chegou uma hora, que ele parou o carro e pediu os meus documentos... e então pude entender algo parecido com: ele tinha pego a estudante trocada e eu estava com um coordenador que não era o meu. E voltamos para o aeroporto para tentar achar as partes certas. Mas se vocês soubessem o que isso rendeu. E quando nos achamos, olhamos todos pra cara um do outro, sentamos no chão e rimos, rimos de chorar! E assim começou o meu intercâmbio...

História do Leandro: Desembarquei e não tinha ninguém esperando por mim. E agora? Sento e choro? Decidi ligar pra minha mãe hospedeira e ela atendeu. Pensei... nossa ...ela ainda nem saiu de casa... mas ela me disse que já já chegava. Esperei duas horas e alguém com cara de louca chegou. Ela parecia gente boa. E falava. Noooooossa, como falava. Eu não entendi muito bem, mas parecia que ela tinha dito, que estava a caminho do aeroporto, quando na estrada, atropelou uma coruja. Ela parou o carro e ficou péssima pois a coruja morreu no trágico acidente. Então, ela decidiu voltar pra casa, e levar a coruja com ela. Quando chegou em casa, ela não sabia aonde guardar a coruja. Pensou, procurou e por fim, decidiu por a coruja na geladeira. Por isso ela se atrasou. Eu fiquei pensando: eu devo estar com meu inglês bem ruinzinho e entendi tudo errado. Mas, pasmem: era verdade e a coruja esteve na geladeira até o meu último dia do intercâmbio. E todos os dias, a minha mãe abria a porta da geladeira e falava bom dia e boa noite pra coruja. Isso que eu chamo de complexo de culpa.

História da Claudinha: minha mãe foi me buscar de pijama no aeroporto. Ela disse que meu avião chegou muito cedo, em pleno domingo e que ela ia voltar a dormir.

História da Anne: desci do avião, no meio do Tenessee e um sujeito todo tatuado, mordendo um capim estava a minha espera. Eu morria de vergonha de atravessar o aeroporto com este ser do meu lado: eu, loira e linda, com um ogro desses. Ele era meu pai hospedeiro. Quando eu achei que já tinha passado o suficiente, eis que ele abre a porta de um caminhão para eu entrar. Era muita mudança na minha vida numa cacetada só. Que louca que eu fui: devia ter ficado no Brasil. Pois digo a vocês que os melhores momentos da minha vida, eu passei com minha família hospedeira passeando e curtindo a vida numa boleia de caminhão. E morro de saudade disso.

História da Karina: desembarquei e estava morrendo de vergonha da minha família, eu não sabia se podia abraçar, dar um beijo, ou se era só um aperto de mão, ou só um tchauzinho de longe... não sabia o que fazer.  Minha mãe de lá percebeu e me abraçou e me entregou flores. Ela disse que se informou com uma amiga que já tinha hospedado brasileiros e disse que era assim que costumávamos fazer.

História da Eva: meu irmão hospedeiro é quem foi me buscar no aeroporto. E ele levou o cachorro também. Ele olhou pra mim e disse que eu era melhorzinha nas fotos. E eu entrei no carro e o carro era nojento. Tinha de tudo: resto de comida, pelos, embalagens de preservativos, papéis, CDs, mas numa ordem extrema que não dava pra perceber a cor dos bancos. E meu irmão conversava com o cachorro e não comigo. Mas explicou que a ideia de ter intercambiário não era dele. Era do resto da família e que ele só estava cumprindo a obrigação do dia.

História do Felipe: no meu primeiro dia, logo na minha chegada, minha família me pegou no aeroporto e me levou direto para um cinema. Eles ficaram felizes por eu estar usando roupas e não estar nu e me levaram pro cinema porque acharam que no Brasil isso não existia. Então, meu amigo, você imagina, alguém triturado da viagem, ir pro cinema, sem legenda, e assistir filme. Hoje, contando, é engraçado, mas naquele dia, naquela hora, eu tinha vontade de bater neles.

História do Ruan: eu tinha caído na família hospedeira que pedi a Deus: numa fazenda, com uma família numerosa. E tinha combinado que eles estariam no aeroporto. Quando desembarquei, fiquei desapontado, pois só tinha minha coordenadora, e não foi isso que eu combinei. Já pensei: começou tudo errado. A coordenadora me explicou que naquela noite, meu pai hospedeiro teve um AVC e estava no hospital e naquele momento a família não poderia me hospedar. Eu fiquei triste. Minha vontade era voltar pra dentro do aeroporto, tomar o primeiro avião de volta pro Brasil. A coordenadora disse que me colocaria na casa de amigos de confiança dela, que eles tinham um filho da minha idade e que tudo isso seria provisório, até que ela tivesse uma outra família pra mim. Fui pra esta nova família. No começo tive bastante problemas com meu irmão. Mas depois, esta família virou a família, cara! Então, a minha coordenadora me procurou, dizendo que o meu “ex-pai” que tinha tido o AVC tinha melhorado, que a vida da família tinha voltado ao normal, e que eles queriam me hospedar. Aquilo foi um choque para mim. Eu gostava deles, mas agora queria ficar nesta outra família. Então, pedi a coordenadora pra visitá-los e conversar com eles e explicar a eles como eu me sentia, mas eu queria eu fazer isso. E durante o meu intercâmbio,  tive as duas famílias mais maravilhosas que alguém poderia ter, pois eu não conseguia ficar longe de nenhuma das duas famílias. E pra quem desembarcou sem nenhuma família, eu tenho hoje, muita saudade, muita mesmo, das minhas duas famílias do intercâmbio.

História da Carolina: eu cheguei muito cedo no intercâmbio e minha família saía pra trabalhar e eu ficava em casa sozinha. A agência do Brasil tinha dito que eu não deveria embarcar tão cedo, a não ser que eu e a família tivéssemos planos para ocupar o tempo. Mas eu não segui os conselhos. Nesse tempo que eu ficava em casa, eu não tinha o que fazer: a família tinha dois cães imensos e eu tinha medo deles, então eu ficava trancada no quarto com medo dos cães. E ficava ligando pro Brasil. Isso foi a pior coisa que eu poderia ter feito: eu gastei horrores de telefone e ao fazer uma ligação errada, acabei por chamar a polícia pra dentro de casa sem querer, lógico.

História do Daniel: Minha mãe e minha irmã foram me buscar no aeroporto. No caminho pra casa, elas colocaram umas músicas no rádio do carro, e cantavam alto e eu junto. Eu decidi “entrar na dança” e imitava e fazia tudo igual. Só quando aprendi a língua é que descobri que aquilo era música gospel e eu nunca fui chegado nesse tipo de música.


Enfim, histórias não faltam. O  importante é não alimentar expectativas pra chegada e tentar passar a melhor impressão de você, seja lá como for a sua chegada e seja lá quem for que estiver a sua espera. Seja você mesmo e seja o melhor que puder ser sempre.
Falô!




A ADAPTAÇÃO
Nossa!
Você embarcou, chegou lá, desembarcou e agora...?
O teu intercâmbio começou.
Você vai ter problemas, vai enfrentar dificuldades?
Sim, lógico que vai.

Quando?
Todos os dias

Quais problemas e dificuldades?
Todos: os que você imagina e os que nem lhe passavam pela cabeça.

Por que?
Vou te explicar...

Você tinha uma vida arrumadinha aqui. E de repente, você resolveu inventar esse tal de intercâmbio.
Pois é...
Então, veja bem, está saindo de cena, estamos tirando tudo da sua vida arrumadinha:
- os seus amigos;
- o seu cachorro, o seu gato;
- o seu quarto e suas coisas;
- a sua escola;
- a sua família;
- o(a) seu(sua) namorado(a);
- a língua que você fala;
- os lugares que você frequenta;
- a comida que você come;

E então você desembarcou em outro país e a sua vida virou do avesso:
- eles falam outra língua;
- eles comem outra comida;
- eles pensam diferente (até senso de humor é diferente);
- a sua família passou a ser outra;
- a partir de agora, você tem outro cachorro e o bicho não foi com a sua cara. E você vai ter que conquistar esse cachorro, mas ele só entende a língua daquele país. Então, meu amigo, até o cachorro você vai ter que conquistar, até com o cachorro você vai ter que falar na língua do país do intercâmbio;
- a escola é outra;
- você não tem amigo nenhum e se quiser ter amigos, vai ter que fazer novos amigos;
- dependendo do país, o clima é outro, o fuso é outro e por conta de fatores como gravidade, a água gira ao contrário;
- não importa se você era importante aqui no Brasil, talvez filho de alguém importante, se você é influente, quem você é aqui no Brasil, nem quanto dinheiro você tem/tinha, nem qual sobrenome você herdou... lá você será somente um estrangeiro, ou digamos um sul americano. A única coisa que conta de agora em diante é VOCÊ, sua pessoa!
- a única coisa que vai com você é aquilo que você aprendeu/recebeu a vida toda, são os valores: caráter, dignidade, responsabilidade, honestidade, ou seja, são os seus pilares de sustentação. É só isso que você levou. Ou melhor, agora é só isso que conta.

Ah! E você achou que viraria estrela e não virou?  Quanta atenção você acha que receberá?
Entenda que a forma como vai lidar com tudo isso é que vai fazer toda a diferença.
Juntamos culturas diferentes e problemas são inevitáveis.
Ter conflitos faz parte do intercâmbio. A capacidade de resolver esse conflito é que faz toda a diferença.
E por que vou ter problemas e enfrentar dificuldades?
Bem, como eu disse anteriormente, juntamos culturas diferentes e isso será inevitável.
Nem você e nem as pessoas do seu país de destino são perfeitos, e você concordará comigo que ler informações de uma pessoa é uma coisa e conviver com essa pessoa é outra coisa.

A vida mudou! Mudou tudo! E significa que coisas que antes eram ou pareciam muito simples pra você, de agora em diante ficarão um pouco mais complicadas. Você questionará muita coisa, o que é certo, o que é errado, ou se o jeito deles é o certo e talvez o certo é só uma outra forma de fazer a mesma coisa.

Vamos encarar os fatos:
A primeira dificuldade será adequar aquilo que você imaginou que seria o lugar, o intercâmbio, a família, a escola e etc.. com aquilo que realmente é. É o tal do ajuste.
A segunda dificuldade será com a língua. Por mais que você tenha estudado a vida toda, a dificuldade com a língua será talvez a maior delas. O seu cérebro está acostumado com a nossa língua. Então, cada vez que alguém falar com você, em inglês, por exemplo, veja o que vai acontecer:
- você vai pensar e traduzir em sua mente o que significa aquilo em português;
- vai pensar uma resposta em português;
- em seguida, ainda em pensamento, irá passar a sua resposta do português para o inglês;
- vai por uma entonação, uma fonética que você acha que ficarão bons;
- e aí sim, vai se expressar verbalmente.
Você sabia que esse processo todo dá dor de cabeça?
E aí talvez você se sinta um pouco infantil por não conseguir expressar ideias que em sua língua você faria com tanta naturalidade. Talvez você não consiga passar tanta confiança, tanta maturidade, tanto quanto gostaria.
E também aparecerão palavras que você vai precisar usar, e que nunca lhe ensinaram. Talvez você se veja obrigado a falar “torneira” ou “maçaneta”  em inglês, mas nunca ninguém te ensinou a falar essas coisas em inglês. E você vai ficar até bravo: “_caramba, estudei tanto inglês e nunca ninguém me ensinou a falar X coisa, precisava ter estudado tanto então? Serviu pra alguma coisa? Para que não serve pra nada."
Não se engane: serve sim. E continue estudando até embarcar que é isso que vai fazer toda a diferença. E pratique mímica. Ser bom em mímica ajuda muuuiiiitto. E ria dos seus micos! Você não faz ideia de quantos virão pela frente!
A outra dificuldade: você não tem amigos, e vai ter que fazer. E não pode esperar ficar bom na língua falada pra fazer amigos. 
Uma outra: você sabe a cara de brava da sua mãe daqui, mas não sabe a cara de brava da sua mãe de lá. Você chegou e faz parte da família, mas você perdeu alguns acontecimentos na vida daquela família e de repente tem que ser sensível a certas datas, por exemplo.
Você vai morrer de saudade do seu cachorro que ficou aqui e vai ter que aguentar a encarnação do Marley do cachorro de lá e tratar o bicho direitinho. E o bicho decidiu que não vai com sua cara.
Você vai ter horário pra dormir..um tal de "toque de recolher";
Você será um sul-americano e dependendo do lugar pra onde você for, eles não sabem nem aonde fica o país de onde você veio! Pra eles você é um ET. E Brasil e Zâmbia é tudo igual.
Você já se questionou coisas simples como: no seu primeiro dia, na casa de família hospedeira, você levanta e aparece pra tomar o café, de pijama, ou você se troca antes?
A tua irmãzinha de lá resolveu que vai fazer você soletrar tudo o que você fala, porque você fala muito errado! Que horror!
Você tem lição de casa todo dia e é em outra língua e tem que fazer com o dicionário do lado. O dicionário virou o seu melhor amigo. E enquanto um nativo faz lição em meia-hora, você leva 3 horas pra fazer. E depois disso, você fica cansado demais.
Você descobriu que aquilo que você achava que era ser bom em futebol, é nada! Que os caras são muito bons. E que você vai ter que baixar sua bola. Eles nem tinham tanto talento, mas a perseverança nos treinos tornou-os os melhores.
Você sente muita falta da internet, do facebook, do whatsapp, skype e etc e eles não estão nem aí pra isso. Eles fazem tudo antes de usar isso e só usam se sobra algum tempo. A média é que olhem para celular duas vezes por dia (de manhã e de noite). Em alguns lugares, o whatsapp  "não pegou"... se usa SMS e skype.
Ninguém mais vai te acordar pela manhã: terá que acordar sozinho com a ajuda de despertador.
Ninguém mais vai alertá-lo se está frio ou calor, se você deve levar blusa ou guarda-chuva. Você deverá decidir isso.
você acha que eles são meio "porquinhos"... (um dia... eu explico esta parte...prometo).
etc
Enfim, aonde eu quero chegar? Que tudo aquilo que parecia simples, que antes não exigia de você o exercício de pensar, a partir do momento que iniciar o seu intercâmbio, você vai se ver pensando em coisas muito simples.

Mas acredite: você é capaz de lidar com tudo isso. Você é capaz de lidar com muito mais coisa. Você decidiu ir pra um intercâmbio, num é mesmo?
Então, vamos em frente!

Ajuda
Você precisa entender que você pode e deve pedir ajuda.

As situações que acontecem durante o seu intercâmbio servem pra que você aprenda a lidar com qualquer outra situação da sua existência. A grande maioria dos obstáculos do seu intercâmbio, você vai ter que resolver:
- ninguém poderá fazer amigos por você;
- ninguém poderá ser agradável em seu lugar;
- ninguém poderá tomar decisões por você;
- ninguém poderá ser feliz por você.
Isso nos faz crescer, isso nos faz pessoas melhores.

Mas, você deve ir adiante e em frente, mas existe um limite.
E você sabe qual é o seu limite.
A partir daí, peça ajuda.

Vamos combinar? Você só foi para um intercâmbio. Você não é mulher maravilha, não é super homem, nem nada disso.
Então, para aquilo que não souber resolver, PEÇA AJUDA.

Você não está sozinho no mundo. Você pode pedir ajuda para sua família hospedeira, para os professores, para o coordenador, para os amigos (os de lá), para pessoas com vontade de ajudar e conhecimento para ajudar.
Isso não é sinal de fraqueza. É coragem. É humildade e não tem nada mais bonito que humildade.

Você não precisa ser forte o tempo todo.
Muitas vezes, uma pessoa que não está envolvida na situação problema, consegue enxergar uma saída bem mais fácil e rápida do que a que você enxerga naquele momento, porque a pessoa está olhando de fora, não está envolvida. E quando não se está envolvido, a tendência é resolver com racionalidade.
Tem muita gente com boa vontade neste mundo. E é bom encontrar com essas pessoas no mundo. Ao pedir ajuda, você encontrará algumas dessas pessoas.
E você vai descobrir que gente que você nem imaginava, que te conhece a tão pouco tempo, foi exatamente quem mais te ajudou.
Bonito né!

Então, ficamos acertados:
- você deve tentar resolver as situações;
- e se não conseguir, peça ajuda
- sempre.



FASE: O CHOQUE CULTURAL
Vamos falar sobre o tal do choque cultural, a primeira semana, o primeiro mês, as datas e celebrações importantes longe da família e logo em seguida, vamos falar de HOMESICK, que ao “pé da letra” significa, doente de saudade de casa.
Te garanto: você vai saber o que significa SAUDADE.

Vamos falar sobre o conceito “científico” de choque cultural.
Pois bem! Choque cultural é o esforço de adaptação de um estrangeiro em terra estranha. É como um susto, só que duradouro, até que tudo aquilo se torne familiar.
O choque cultural é um sintoma normal e inevitável para qualquer intercambiário que esteja se ajustando a uma nova língua e a uma nova cultura. Estudantes passam por essa experiência com graus e períodos diferentes. Você não pode evitar o choque cultural, mas pode reduzir o impacto. Quanto mais você entender a sua cultura, mais tolerante e flexível você será ao se ajustar a uma cultura diferente.
Acredito que toda cultura tenho aspectos positivos e negativos. Encorajo você a estudar e a estar ciente das diferenças entre seu país e o país onde você vai morar nos próximos tempos. Tente entender as diferenças antes de julgá-las.
Muitos estudantes sofrem com o choque cultural logo que chegam no país hospedeiro.

O primeiro sinal de que você está passando pelo choque cultural é se você se pegar se fazendo a seguinte pergunta:


O que é que eu vim fazer aqui?
E a tendência é que esse “papo-cabeça” entre você e você continue....

O que é que tinha na cabeça quando inventei de fazer esse tal de intercâmbio?
Gsuis, isso não pode ser verdade, isso não pode estar acontecendo comigo...Minha vida estava tão ajeitadinha, era tudo tão normal...

O segundo sinal é quando você começa a pensar em quanto tempo ainda falta pra vir embora, de volta pra casa.
Lembro-me de um menino que aqui vou chamá-lo de Luís. Quando chegou a informação da família hospedeira dele, ele me ligou. A família hospedeira era: pai, mãe, filhos crescidos que não moravam mais com o casal. Os animais de estimação eram lobos, 3 lindos lobos. A família morava numa fazenda e o pai era motorista de caminhão. A família estava optando por receber dois estudantes: o Luís e um polonês, ou seja, era o que chamamos de double placement, ou dupla colocação.

O Luís me ligou curioso sobre sua colocação. Fez um monte de perguntas:
- se ele tinha que aceitar essa colocação ou se ele poderia recusar: expliquei para o Luís que ele estava indo para um programa de high school público nos Estados Unidos, aonde as famílias são voluntárias para hospedar. Neste tipo de programa, não importa a condição/nível sócio-econômica-financeira-cultural-religiosa da família. Se a família tiver um interesse genuíno no programa, tiver caráter, atender às exigências do US Dept, se tiver condições de dar suporte e conselhos, se está disposta a seguir as regras do programa, é uma família habilitada pra hospedar. Não importa se a família está no norte, no sul, na cidade grande ou pequena, no centro ou na zona rural, esta família está apta a hospedar um estudante. Então, se este for um dos motivos pra recusar a família: condição social, lugar aonde mora, a resposta é não, você não pode recusar a família.

- a outra pergunta foi se esta família já tinha hospedado alguém e se ele poderia ter contato com esse alguém que a família hospedou? Então, eu disse a ele que todo mundo que tinha passado pela família, os lobos comeram. E que não sobrou ninguém pra contar. Mas que ele poderia ligar pra família e perguntar sobre isso. Ele me disse que ia mandar um email. Eu expliquei ao Luís que o brasileiro fica muito na internet, mas o americano, do interior americano, raramente entra na internet. Os americanos entram uma vez por semana nos emails pessoais, nas redes sociais, olham se tem algo e saem. Então, eu disse a ele, que se ele NÃO quisesse resolver o assunto, era só mandar um email. Resposta: Telefone pra sua família hospedeira, agradeça por estarem te recebendo, pergunte sobre eles, sem que isso se torne um questionário do senso.

- a outra coisa que ele me questionou foi se era uma boa ter um outro intercambiário na casa. Eu disse ao Luís que tem os dois lados. O lado positivo é que você já começa o programa com um amigo, pois é alguém na mesma situação que você. Dá pra aprender sobre duas culturas no mesmo intercâmbio. Vocês podem se tornar grandes amigos pela vida toda e sempre que você for pra Polônia terá um amigo pra visitar. O lado negativo é que a família poderá fazer comparações entre vocês dois, mas isso aconteceria se você tivesse irmãos e isso acontece entre você e seus irmãos também aqui no Brasil. Um outro porém é você se apegar demais só a ele e deixar de fazer outros amigos.

Luís embarcou e ao desembarcar lá, ligou pra mãe brasileira chorando e disse assim: “_ Mãe, eu descobri que eu amo você e meu pai. Deixa eu voltar embora? Eu trabalho pra recuperar todo o dinheiro que vocês gastaram comigo pra eu vir para o intercâmbio, eu prometo. Mas pelo amor de Deus, me deixa voltar.”

A mãe do Luís respondeu assim pra ele: “_ Eu não te obriguei a ir. Você quis ir. Então agora você vai ficar. Não quero mais ouvir falar de você pelos próximos 15 dias. Não me liga.” 

Gente, eu tenho um orgulho desta mulher que vocês não fazem idéia.

Estava claro e evidente que o Luís estava passando pelo choque cultural. Quando a mãe dele me ligou pra relatar o que houve, entramos em contato com as coordenadoras, que envolveram o Luís em atividades e o mantiveram ocupado até o início das aulas. As aulas iniciaram e o Luís teve um excelente desempenho escolar, a ponto de se tornar um brasileirinho sempre lembrado naquela escola do Oregon. Ele foi atrás de fazer coisas que sempre teve vontade de fazer, mas nunca teve oportunidade, tais como: participar de teatro, banda da escola, entrar pro beisebol, serviços voluntários e etc. Ele se tornou um grande admirador dos seus pais hospedeiros que além de manter a própria fazenda, o pai ainda tinha um emprego fora e trabalhava pra caramba. E apesar de reclamar que o polonês não tomava banho e fedia, os dois se tornaram grandes amigos. A mãe hospedeira abraçava o Luís pra que ele não sentisse tanta falta do carinho dos brasileiros e proporcionou tudo o que pode, na sua simplicidade, tanto para o Luís como para o Polonês. O Luís ajudava a mãe com os afazeres da fazenda antes de ir pra escola pois achava que era muita coisa pra ela cuidar sozinha. Conquistou muita gente durante o intercâmbio, melhorou como pessoa, melhorou seus relacionamentos. Não foi comido pelos lobos, pois segundo o Luís os lobos eram bonzinhos. Outra coisa é que o Luís era magrelo e não interessava aos lobos.
Mas e o choque cultural? Ah é mesmo! Ficou lá pra trás, em algum lugar do passado. Nem lembrava mais daquilo.

Também presenciei a seguinte situação:
- a menina tinha acabado de embarcar. A mãe da menina me procura chorando e disse que a filha ligou e disse: “_Mãe, preciso que você me deixe voltar. Se você não deixar, eu vou até a cozinha, pego uma daquelas facas e me mato. E você vai morrer de remorso para o resto da vida.”
- eu tentei explicar pra mãe, que a menina não ia fazer nada daquilo, era só uma forma de chamar a atenção.
- mas a mãe insistiu que avisássemos a organização internacional sobre isso e pedisse que enviassem alguém para o local, pois ela temia pela filha e a esta altura do campeonato, tinha medo do que ela poderia fazer.
- eu disse a ela que passar essa história adiante seria desastroso. Isto poderia por fim ao intercâmbio da menina.
- a história, conforme solicitado pela mãe, foi passada pro exterior. Tudo foi feito para que a menina se recuperasse do choque e voltasse a vida normal. No entanto, após passado o susto, a organização americana se posicionou da seguinte forma: ou os pais brasileiros solicitavam a volta da menina por bem ou eles estariam contratando profissionais habilitados para provar que a menina não tinha condições psicológicas para estar no programa e a mandariam de volta de qualquer forma. E que seria melhor pra todos que eles solicitassem o retorno e foi o que os pais fizeram.
E foi durante esses acontecimentos que descobri que a menina foi para o intercâmbio porque essa era a vontade dos pais e não a dela. Que ela só foi, em obediência aos pais.
Ou seja, foi pelos motivos errados.
E fica aqui mais uma lição: NÃO BLEFE! JAMAIS! NÃO FALE AQUILO QUE NÃO TEM CERTEZA ABSOLUTA.
Os estudantes podem ter muitas expectativas de como as coisas seriam e que são irreais. Os estudantes podem ir para um programa de intercâmbio pelas razões erradas, achando que as coisas seriam melhores em um novo lugar.
Uma coisa é certa: uma pessoa que, aqui no Brasil, no seu “ambiente natural” tem dificuldade em lidar com novos horários, novas idéias, pessoas desconhecidas ou maiores mudanças em sua terra natal, definitivamente vai ter problemas no intercâmbio.

O que você precisa entender e estar ciente é que:
- o choque cultural é só uma fase e fase é fase.
- E fase... fase passa!


O CHOQUE CULTURAL E A INTELIGÊNCIA
Vamos voltar pra parte mais científica da coisa...

Durante seu intercâmbio, você terá alguns dias frustrantes e desanimadores. Você pode se sentir totalmente dominado (sem ação) entre os nativos, no começo, ou pode simplesmente ficar confuso com palavras ou frases específicas.
Você terá surpresas e assombros, mas precisa ter consciência de que ser diferente e estranho não significa que sejam esquisitos e errados.

“Eles não fazem a coisa certa aqui!” ..... isto não é nada legal de pensar...

Porque todos nós aprendemos desde pequenos sobre valores básicos e exemplos de comportamentos; então tendemos a assumir que a maioria de nossas crenças e comportamentos são “naturais” e são de padrão comum do universo.
Durante as primeiras semanas da sua estada, certamente você passará por um choque cultural e provavelmente ficará com saudade de casa. Isso já é esperado. Você terá opiniões negativas de muitas coisas, tudo que sonhou antes do seu embarque parece não ser nada interessante.

Para limitar ao máximo possível os efeitos da saudade, você deve se envolver em atividades (esportes, visitas, jogos, lições de casa, igreja, trabalhos voluntários, programas com os amigos, academia, ...). Isto manterá sua mente ocupada e você esquecerá que seus pais ou pessoas queridas estão longe ou que tudo está diferente no seu país hospedeiro.
É importante perceber que o que está acontecendo com você é comum para pessoas em novos ambientes. O mais importante é fazer algo para ajudar a aliviar essas emoções.

O que contribui para o choque cultural:

Comida:
Os brasileiros que fazem intercâmbio na França, pelo que pude perceber, são os que mais estranham a comida, tanto pelo paladar, como pelo horário das refeições, como pelo aspecto dos alimentos preparados. Os brasileiros que vão para os Estados Unidos são os que mais engordam. Já vi intercambiário comentar que a família hospedeira, em 3 pessoas, conseguiu consumir um bolo doce de 1,5m X 1,5m em menos de meia hora.
E algumas considerações para quem está indo pra hospedagem em casa de família: a família não vai cozinhar pra você! Esqueça isso. Ninguém vai fazer teu prato predileto.A família não vai comprar frutas e verduras porque você colocou no seu application que você é natureba ou ecochato Mas é importante que você saiba que: se na sua família tiver um diabético e toda a comida que se faz na casa, é pensando no diabético, saiba que é essa comida que você vai comer. É família, não é hotel e não tem um cardápio aonde você escolhe o que lhe convém. Nada impede também que de vez em quando, você faça um prato típico brasileiro para a sua família hospedeira.


A Língua:
Você pode se sentir frustrado com sua inabilidade para expressar idéias e sentimentos. Por ser forçado a se comunicar em um “nível simples”, você pode se sentir como uma criança. Como você provavelmente estará nervoso porque inglês, francês, holandês, alemão, etc... não é sua língua mãe, nas primeiras semanas você estará preocupado com a idéia de cometer um erro. Não tenha medo de cometer erros. Uma das partes divertidas do intercâmbio, é rir dos próprios erros. Não se preocupe, é normal e tente se expressar com calma. Um situação engraçada aconteceu com a estudante Carolina. Não sei se vocês sabem, mas dentes e tetas se pronunciam de forma muito parecida (teeth and tits). Todas as noites, após o jantar, a família hospedeira de Carolina sentava numa sala pra bater papo e jogar. Como Carolina usava aparelho nos dentes, ela pedia licença para escovar os dentes antes de participar do bate-papo. Após uns dois meses de programa, a irmãzinha do intercâmbio diz pra Carolina: "_Carolina, a pronúncia correta de dentes é ... e você tem escovado as tetas todas as noites". Outra situação foi com a menina Patrícia que não entendia muito bem porque o pai hospedeira falava tanto em pedras e só depois de um tempo, ela entendeu que na verdade, ele estava falando do evento Rock in Rio. Não era sobre pedra alguma. Outro caso ...outro mico na verdade... cereal matinal e órgão sexual feminino, em alemão, também tem pronúncias muito semelhantes. Então, você pode imaginar a situação quando a mãe hospedeira alemã perguntava ao intercambiário: “ o que você deseja comer no café da manhã?" E ele achava que estava respondendo sucrilhos. As crianças fazem a diferença no seu intercâmbio. As crianças tem coragem de te corrigir, seja qual for a situação. A irmãzinha hospedeira do Ivan, etiquetou toda a casa antes da chegada do Ivan. Colocou etiqueta na geladeira, na maçaneta, no fogão, no microondas, em tudo. E quando o Ivan falava errado, ela ensinava o Ivan a falar o certo e fazia o Ivan até soletrar. Mas ele disse que deve a irmâzinha hospedeira, a rapidez com que aprendeu o idioma.

Sua Vida Social: 
Uma das principais razões de estar fazendo intercâmbio é conhecer pessoas novas e diferentes. Faça amigos de todos os jeitos: os amigos da família, do curso, da igreja, do clube, da academia, do trabalho voluntário e etc. Tendo amigos, você terá sempre coisas pra fazer e isso te manterá ocupado. E isto faz toda a diferença.

Escola:
Você irá para a escola com estudantes mais ou menos da sua idade. Você é quem tem que dar o primeiro passo, tentar integrar-se em um grupo... O primeiro contato pode ser difícil, já que eles não o conhecem. Talvez fiquem impressionados ao ver você e não saberem o que dizer. Vá em frente! Mostre quem você é e tente investir nas amizades. Isto levará algum tempo, mas se você for determinado, terá sucesso. Se outros intercambistas ou estudantes do seu país morarem perto da sua casa ou tiverem aulas na mesma escola que você, tente ter o mínimo de contato com ele(s). Isso pode atrapalhar sua integração e você tem que prestar o máximo de atenção possível na sua família hospedeira e amigos nativos. Se deixar os nativos de lado por muito tempo, você será aos poucos excluído e não aprenderá nada sobre o país hospedeiro. Se você encontrar outros intercambistas do Brasil enquanto há nativos ao redor não fale em português! Você deve continuar falando inglês/francês/holandês, etc... para evitar excluir os seus novos amigos. Você deve tomar cuidado com isto, se falar na sua língua enquanto eles estão perto, eles te acharão rude.

Ajuste:
Finalmente, você percebe que encontrou o seu próprio jeito de fazer as coisas. Você descobriu que você é forte e que pode fazer um monte de coisas . Você se sente fortalecido, corajoso. Você passa a dar importância pra coisas que antes não dava. E coisas que antes tinham importância, deixam de ter importância. Você inventou uma nova forma de fazer coisas que antes fazia. Você tem uma outra visão sobre um monte de outras coisas. Você se ajustou a esta nova cultura. E esse seu jeito  é somente “um jeito” entre muitos outros diferentes.

Existem várias definições para a palavra inteligência. E uma das definições diz que inteligência é a capacidade de se adaptar adequadamente a novas situações.


FASE: HOMESICK
Alguns estudantes tem HOMESICK logo que chegam, outros depois de 2 meses de programa, outros estudantes tem perto de datas importantes, como Natal, por exemplo, outros estudantes tem depois de 7-8 meses de programa e outros na última semana de programa.

É raro encontrar um estudante que tenha ido para um intercâmbio de longa duração e que não tenha passado por homesick.

Homesick na versão mais simples significa DOENTE DE SAUDADE DE CASA.

A forma de homesick mais difícil de lidar, é aquela que vem junto com o choque cultural logo na chegada e nos primeiros dias de programa.

Este é o mais difícil, pois você já está lidando com o choque e lidar com a saudade e a falta das pessoas que você ama ao mesmo tempo vai exigir bastante determinação e vontade de ficar ali.

É o mais difícil de lidar também porque você ainda não conhece muita gente, lugares, ainda não conquistou a confiança das pessoas.

O primeiro mês é o mês de descoberta, novidades, excitação, ansiedade, insegurança, medo; é o mês de perder o sono, de chorar escondido com o travesseiro; é o mês de perguntar: “O que é que eu vim fazer aqui...?”. Mas pelo fato de estar junto com o choque, a receita pra lidar com o choque e com o homesick é a mesma: FALAR SOBRE O QUE ESTÁ SENTINDO E PEDIR AJUDA.


O homesick mais “chatinho” vamos dizer assim, é aquele que acontece quando você está há mais ou menos dois meses no programa.

É quando você tem a impressão que já viu e já fez tudo o que tinha que fazer naquele lugar, que aquele lugar não tem mais nada a lhe acrescentar, quando você tem a sensação de que eles não fazem nada certo lá. E pronto: já que você chegou a essa conclusão é porque já está na hora de voltar pra casa. Pelo menos é isso que você vai concluir.
Uma coisa que funciona muito bem nesta fase, do homesick aos 2 meses de programa é você se escutar, isso mesmo. É você fazer uma autoanálise. Pega um papel e faz um paralelo.

Nesses dois meses de intercâmbio:
a) o que você fez, o que aconteceu, o que mudou, quantas pessoas você conheceu, a quantos lugares você foi, quantos medos seus você já enfrentou, enfim, o que você fez nesses dois meses.
b) por outro lado, se você estivesse aqui, na sua terra natal, nesses dois meses, o que você teria feito?

O segundo paralelo é o “daqui pra frente”...
a) o que ainda dá pra eu fazer, o que ainda esse intercâmbio tem a acrescentar na minha vida, quantas pessoas posso conhecer, que diferença isso vai fazer na minha vida, que diferença eu vou fazer na vida dessas pessoas e desse lugar se eu continuar aqui...
b) e o que eu faria de agora em diante, nos próximos meses se eu voltasse ao Brasil.
Normalmente, depois de fazer esse paralelo, você se convence de que, essa fase de homesick vai passar e você vai continuar no intercâmbio, que é só uma fase. E fase... ah fase passa, ah passa.

Nunca, em hipótese alguma, abra mão do seu intercâmbio por causa dessa coisa chamada saudade. Se o fizer, será a coisa que mais vai se arrepender.

Todos os estudantes que cederam e voltaram por causa de saudade, por causa de homesick, disseram a mesma coisa:

“_...em uma semana, de volta a minha casa, eu já estava curado da minha saudade e queria voltar pro meu intercâmbio e não podia mais. As pessoas, pelas quais eu voltei por causa de saudade, seguiram suas vidas e só eu fiquei com o arrependimento por ter voltado mais cedo, sem contar a frustração.”
Então, sabemos que saudade é uma coisa que você vai ter que lidar o intercâmbio todo, umas fases mais intensas e agudas e certas fases mais amenas. Então, esteja preparado para lidar com isso.

Aqui vamos entrar num assunto polêmico que é o contato muito frequente com família, amigos, namorada(o), e etc via celular, redes sociais e etc enquanto estiver num intercâmbio.

Se você fizer uso desta tecnologia a seu favor: pra MATAR a saudade e só, tudo bem. Pra você entrar de vez em quando, olhar todo mundo, postar suas fotos e compartilhar com todo mundo, matar saudades, ouvir e postar músicas, etc... e se fizer o uso consciente, não com tanta frequência, isso é saudável e bom.

Mas se você fizer mau uso disso tudo (redes sociais, iphone, ipad, celulares e etc) para se torturar e achar que assim você está no controle da situação... isso é BURRICE. Se você foi para o intercâmbio para ficar nas redes sociais sondando o que estaria acontecendo com quem ficou, na boa, não precisava ter ido pro intercâmbio. Era bem mais barato se tivesse ficado no Brasil.

O importante é não perder o foco: você foi para o intercâmbio pra que mesmo? Lembre-se, durante o intercâmbio, de fazer amigo de carne e osso.

O maior problema disso tudo será gerenciar o acesso fácil que as pessoas que você deixou terão a você e quanto respeitarão suas decisões com relação ao uso de redes sociais e celular.

Exemplo: se, no intercâmbio, você estiver recebendo orientação do seu técnico de futebol, não vai gostar de receber um telefonema de seu amigo, contando do churrasco que está rolando aqui no Brasil. Você poderia ficar sabendo disso depois.

Então, é isso, preste atenção no que esta facilidade de acesso pode trazer de consequências ao seu intercâmbio.

O ideal mesmo é tentar se desligar ao máximo. Quanto mais contatado você for, quanto mais contato tiver, pior pra você que está no programa de intercâmbio. Pra quem não está no programa de intercâmbio não faz diferença nenhuma. Mas pra você que está faz muita diferença.

Após os dois primeiros meses, você começa a perceber que entende melhor aquele povo, que na escola as coisas melhoraram, que já conquistou a amizade de pessoas e consegue fazer amigos, que já consegue se comunicar melhor e aí você vai achar mais fácil, vai se sentir mais forte para enfrentar os outros meses. O começo pode ser o momento mais difícil e, nos outros meses, depois de ter atravessado esta fase mais difícil, você vai aproveitar tudo que conquistou. Mas é importante lembrar que você terá dias monótonos e datas que você vai lembrar e que poderão te deixar triste, como Natal, aniversários, etc. Lembre-se: DURANTE O INTERCÂMBIO, VOCÊ PASSARÁ POR FASES, E TODAS AS FASES SÃO PASSAGEIRAS.

Uma outra fase aonde a tal da HOMESICK ataca, é na época de Natal e em datas importantes.
No Natal, no Brasil, estamos no verão, férias escolares... enfim, é uma época em que aqui se junta tudo de bom.
Alguns dos países mais procurados para intercâmbio se situam no hemisfério norte, aonde no Natal, tem neve, e não é época de férias.
Então, quando o estudante, lá no intercâmbio, recebe uma ligação no celular, dos primos, todos na praia, no sol, de férias, naquela festa em família...certamente isso o afeta.., pois ele, intercambiário, está lá no intercâmbio, já de saco cheio da neve, aquela família lá reunida, em festa, não é exatamente aquela que ele intercambiário queria que estivesse ali com ele naquele momento. Ele não está de férias. E todo aquele clima natalino deixa o intercambiário mais sensível do que em qualquer época do ano.
O que eu costumo dizer para os intercambiários é: que outra oportunidade você terá de passar um Natal como este e quantos outros natais ainda tem pela frente? Então, aproveita este tal qual está sendo pintado pra você. Curte e aprenda mais um pouco sobre a cultura do lugar.
Dependendo da religião ou costume da sua família hospedeira, pode não ter comemoração de Natal.

No 7º. ou 8º. mês é aquela fase em que a maioria dos intercambiários, sem perceber, transforma a família hospedeira em hotel.
Nesta fase, o intercambiário está tão envolvido com amigos, esportes, escola, comunidade que quando aparece na família, apenas toma banho, janta, troca de roupa e dorme.
A família hospedeira, ressentida, passa a reclamar dessa atitude.
E o estudante de intercâmbio, não compreende e passa a comparar com a família brasileira.
Envolva sua família em tudo o que for fazer e participe da vida deles, independentemente de ter amigos e de ter muita coisa pra fazer. Isso é essencialmente importante.

Faltando dois meses para o intercâmbio acabar....

Júlia me disse:
Eu so to nesse misto de sentimento de querer e não querer voltar ao mesmo tempo:
-  Umas horas eu fico triste pq quero voltar
- Outras horas eu fico triste pq n quero voltar hahaah
Eu falo pouco com as pessoas do Brasil, funciono melhor assim
Quando eu to homesick eu procuro fazer alguma coisa com os meus amigos mais próximos daqui aí vem aquele sentimento de “em dois meses eu n vou mais conviver com eles” a aí inverte hahah é muito esquisito, mas é normal isso no final né?

Normalíssimo Julinha! rsrs


O finalzinho do intercâmbio:
- para alguns estudantes - é algo parecido com dor de barriga. Sabe quando você está com muita dor de barriga e não vê a hora de achar um banheiro para se aliviar? Então, para alguns estudantes é assim... é chegada a hora, é hora de vir embora.
- para outros estudantes – é desesperador saber que o intercâmbio vai acabar. Começa o nervosismo do retorno... as coisas não serão as mesmas quando você voltar para casa no Brasil e você sabe que sentirá falta dos seus amigos do intercâmbio e família hospedeira.

E a partir daqui, convido você a ler o post DEPOIS DO INTERCÂMBIO.
https://www.fyi-gente.org/2016/11/depois-do-intercambio.html







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