segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

DEPOIS DO INTERCÂMBIO


Dimi Masagão - Burnaby

O intercâmbio está chegando ao fim :(

E você começa a pensar e a sentir um pouco de tudo:
- sua família daqui quer ir te buscar... e você pensa: "_ que legal, assim minha família brasileira conhecerá minha família do intercâmbio."
Mas daí a pouco, você já pensa... "_ o que é que minha família brasileira quer vir fazer aqui...  irão atrapalhar a minha despedida e eu não vou conseguir aproveitar os meus últimos dias aqui e sabe-se lá quando eu vou poder voltar."
- sente-se triste em deixar pra trás tudo aquilo que conquistou por você mesmo, sem saber quando vai rever aquelas pessoas que te trataram tão bem, sem nem saber direito de onde você tinha vindo; e você se tornou importante na vida delas também... complicado imaginar de agora em diante;
- mas ao mesmo tempo sente alegria porque vai rever quem deixou aqui no Brasil esperando a sua volta.

Mas também,  tem o oposto ...
- tem também aqueles intercambiários que não veem a hora de voltar embora... salvo as devidas proporções,  algo como uma dor de barriga que você não vê a hora de chegar ao banheiro (desculpa pela comparação, mas você concordará comigo que com dor de barriga, é um alívio chegar ao banheiro).

E então você voltou...
Chorou no avião durante 10 horas e desembarca de rosto inchado. Você vai chorar mais na despedida do intercâmbio do que quando partiu pra aquele lugar e deixou todo mundo aqui no Brasil.

E aí você desembarca, fala um "Oi gente".
Você será criticado por esse simples "Oi gente"... algo como "_ Poxa, passamos meses aqui te esperando pra te dar um abraço e você só fala OI.?"
Você passou meses se policiando pra não sair beijando e abraçando todo mundo no intercâmbio pra não ser mal interpretado por lá... e vai demorar um tempinho, talvez, pra voltar pro jeitinho brasileiro.

É muito bom rever todo mundo. E você liga pra família de lá pra avisar que chegou bem.
E talvez nessa hora, talvez você escute algo como o que a Juliana escutou da irmãzinha hospedeira: "_ Ju, quando você ia à escola, você voltava logo; quando você saía com suas amigas, você voltava logo... e onde é esse tal de Brasil que você foi e não chega nunca de volta?!"

Você tem muita história para contar. Mas nem todo mundo tem tempo e paciência em ouvir. Passado alguns dias, você continua querendo contar tudo o que te aconteceu, mas as pessoas não passaram pela experiência e seguiram sua vida normalmente.
E você fica perdidinho: você começa a achar que a vida no intercâmbio era perfeita e que você jamais devia ter voltado pro Brasil. Você começa a querer ter a vida que tinha no intercâmbio, aqui no Brasil, de volta.
Você começa a questionar tudo... começa a achar que fazemos tudo errado. Você analisa e pensa, mas algumas coisas pra você não tem o menor sentido. "_ Como assim, esse babaca não parou quando eu coloquei o pé na faixa de pedestre..."


Esta síndrome ao contrário ou choque cultural invertido, acontece com muitos intercambiários.
Alguns pais/mães não entendem muito bem essa fase e reclamam que você voltou esquisito, rebelde, irritante e irritado.
Mas, eu juro que eu te entendo. É difícil mesmo. Mas se você está passando por isso, este é o melhor sinal de que seu intercâmbio realmente valeu a pena.

Algumas dicas que podem te ajudar a superar esta outra fase do intercâmbio... achou que tinha acabado? ainda não...


O DRAMA DE VOLTAR DO INTERCÂMBIO
Após experiência no exterior, que na maioria das vezes compreende de 6 meses e 1 ano, o brasileiro precisa deixar a vida ao qual teve que se acostumar no exterior e muitas pessoas mencionam a “depressão pós- intercâmbio”, e para quem pensa que é uma bobagem, vale o alerta: tem ex-intercambiário procurando psicólogos após o intercâmbio e o assunto já virou até tema de estudos de psicanalistas.

Eu não sei se chamo de depressão, porque depressão é muito forte, eu acho que é um reajuste que dá agonia,  é a dificuldade de se readaptar ou tristeza que abate o intercambista após o retorno ao país de origem  ( chamada de síndrome do regresso) ...
É uma fase de inconformismo... uma fase de "... o que é que eu estou fazendo aqui, o que é que tem pra eu fazer aqui."... e você deve se lembrar que ao desembarcar no país de intercâmbio pensou a mesma coisa... no entanto, quando você chegou no intercâmbio, você estava cheio de expectativas e planos e de repente parece que não tem mais nenhum, que evaporou. Mas por que? E por que está tão difícil se adaptar de volta aqui?
São inúmeras as respostas, e muitas delas são pessoais, pois cada pessoa que vive fora do país por algum tempo vive uma diversidade enorme de experiências que são únicas, e isso faz com que o período de voltar do intercâmbio fique mais difícil. 

Mas os motivos mais comuns que geram a síndrome do regresso, são:
Sensação de perda: sim, você perdeu algumas datas, comemorações e fatos importantes: muitas coisas aconteceram e você não estava aqui. Perdeu novidades das vidas das pessoas próximas a você, a cidade que você morava mudou, as músicas são outras, o prefeito é outro e etc.​ 
A falta da novidade: quando você mora num país estrangeiro, tudo é novo. A língua é nova, a atitude das pessoas é diferente, as comidas são diferentes, tudo é novidade. Até uma mera ida ao mercado é algo mais divertido do que no Brasil. Mas aqui, de volta, apesar de ter acontecido coisas, não tem nada novo.
Amigos do intercâmbio: uma das reclamações mais comuns, é a saudade dos amigos que você fez no intercâmbio. Você conheceu pessoas de muitas nacionalidades e eram pessoas na mesma situação que você e durante o período de intercâmbio a intensidade das relações é muito mais profunda porque ambos estão fora do seu país de origem. Amizade passou a ter outro sentido pra você. A sensação de que pode nunca mais ver essas pessoas que foram tão importantes nesse período, aumenta a sensação de perda e de depressão pós-intercâmbio. 

Adaptar à realidade brasileira: acostumar-se com o dia a dia do Brasil após um período em países da Europa ou da América do Norte, por exemplo, não é fácil. Muitos intercambistas voltam com mais medo da violência e dos assaltos do que quando partiram daqui; reclamam muito dos preços, pois se acostumaram a ter maior poder de compra com menor quantidade de dinheiro; reclamam dos transportes – não é novidade pra ninguém que a qualidade dos transportes públicos no nosso país é deficiente; reclamam da desordem: depois de se acostumar com uma população menos enérgica que a nossa, o barulho, a confusão, as filas e o “jeitinho brasileiro” tomam uma dimensão maior do que se pensa. 

A saudade das viagens: intercambistas viajam muito. Os motivos são diversos: querem conhecer o país de destino (ou os países vizinhos) enquanto têm a oportunidade, conseguem fazer viagens a baixo custo (algo que é difícil por aqui), conhecem vários lugares em uma mesma viagem, conhecem dezenas de pessoas por viagem. Quando voltam ao Brasil, essa realidade muda.  Aqui, viajar é mais caro, não tem um bando de estrangeiros durante as viagens pra você conhecer e aos poucos, viagens passam a não ser tão frequentes e você sente falta, sente saudade das viagens e a vontade de cair no mundo de novo só aumenta. 

Sim,  “eu mudei” e ainda bem: voltamos diferentes depois de um intercâmbio. Essa mudança é perceptível tanto pelos parentes e amigos, e ainda mais pelo intercambista. Você teve um monte de experiências, conquistou independência, aprendeu a se virar sozinho, tornou-se fluente em um novo idioma, você pensa diferente e age de forma diferente. Enquanto você criou uma grande bagagem cultural e colecionou experiências, sua família e amigos, mesmo que muito felizes por você, continuaram na rotina de sempre. Você teve um crescimento acelerado pelo intercâmbio e as pessoas ao seu redor não o acompanharam, e já não agüentam mais te ouvir falar das mil e uma aventuras que você teve e eles não. 

Aqui, eu sou comum:
quando você mora fora, você é novidade. É estrangeiro, tem visual diferente, costumes diferentes, fala uma língua diferente, tem um sotaque bonitinho...Você é visto como alguém especial e a maioria das pessoas gosta dessa sensação. E ao mesmo tempo, todos do Brasil declaram muita saudade de você, dizem que você faz falta, dizem pra você voltar logo, o que aumenta a sensação de: eu sou especial. Quando retorna, você volta a ser comum. Todo mundo é brasileiro, a saudade que os amigos e parentes sentiam de você é encerrada e você sentirá e descobrirá que não é mais “único e especial”.


Algumas coisas que podem ajudá-lo a passar por esta fase. E lembre-se, já falamos sobre isso, fase sempre passa.  Assim como a sua fase do homesick... lá atrás também passou um dia. 

Mas você pode fazer coisas pra passar mais rápido e de forma mais prazerosa:

FILMES: Você assistiu alguns filmes antes de ir para o intercâmbio. Agora, já que voltou, pode usar a mesma tática. Para matar as saudades dos locais onde visitou, vale ver filmes que foram encenados nesses lugares. Você verá os locais com uma nostalgia diferente, com uma sensação de “eu estive ali!”, que traz boas lembranças. Se você colocar num buscador na internet... "filmes que se passaram em Londres"... "filmagens que foram feitas na Nova Zelândia"... você vai encontrar uma lista enorme com muita coisa pra ver e que ajudará a matar a saudade.
LIVROS:  os livros te transportam para os locais onde você esteve. Existem livros que se passam nas mais diversas cidades do mundo e garantem uma imersão ao local. 
FALE DO SEU INTERCÂMBIO: avise a todos quando você chegar: eu tenho muito para contar, então se preparem, sentem-se e escutem. Fale das suas experiências com amigos e família, bota pra fora... ficar com aquilo engasgado tornará mais difícil de digerir a saudade. Crie um blog (ou continue o blog que começou no intercâmbio);  poste nas redes sociais, visite os seus amigos...

AJUDE QUEM AINDA VAI EMBARCAR: você pode falar de sua experiências para os futuros, dar dicas, falar de seus erros e acertos. Quem vai embarcar para um intercâmbio terá toda a paciência do mundo pra te ouvir. Na verdade, eles adoram. E você vai se sentir útil e isso é gratificante.
REDESCUBRA SUA CIDADE DE ORIGEM: sabe aquela vontade de explorar que você tinha ao viver na sua cidade do exterior? Que tal aplicá-la à sua cidade aqui no Brasil? Com certeza tem muitos lugares que você não conhece, cidades próximas podem ser baratas. Muitas pessoas conhecem o exterior e não conhecem o Brasil ou a cidade vizinha.

MANTENHA CONTATO COM SEUS AMIGOS ESTRANGEIROS:  não deixe as amizades feitas no intercâmbio morrerem por falta de contato. Só essas pessoas viveram o mesmo que você, com a mesma intensidade. Elas são as pessoas ideais para ouvir suas saudades dos momentos vividos. Além de manter uma amizade com alguém bem diferente do seu cotidiano. Pergunte como vai, como vão as coisas depois do intercâmbio, os planos para o futuro, marquem de tentar se encontrar. Muitos ex-intercambiários viajam para outros países para reencontrar os amigos do intercâmbios. E é bacana porque parece que você tem casa em todo lugar do mundo.
RELAXA E NÃO ENCASQUETA: se dê um tempo, uma hora você vai se readaptar. Pode demorar um pouco mais do que o esperado, mas a sensação de “é bom estar em casa” vai voltar pra você. Alguns reagem melhor se forem com calma...se precisa de um tempo pra cabeça, porque ainda está no ritmo do intercâmbio, aí então vai com calma, Mas, se ocupar a cabeça te faz bem, então retome os estudos, os reencontros com amigos, as badalações, procure um trabalho... 
VAI VIAJAR UAI.. POR QUE PAROU?  O mundo já não tem mais fronteiras pra você. E na sua cabeça, ir pra China é a mesma coisa que ir pra Santos, simples assim... Então, não pare. Procure destinos diferentes, faça sua economia, invista seu tempo e dinheiro nisso. Tornar-se um viajante é das melhores recompensas de quem faz um intercâmbio. Não há mais medo de enfrentar o mundo e conhecer tudo o que ele tem pra oferecer. Planeje-se, vá com amigos, com família, com namorado(a) ou sozinho, mas nunca mais deixe de viajar.


REGRESSAR AO PAÍS DO INTERCÂMBIO (OU UM OUTRO QUALQUER)?: ficar aqui já não faz mais parte dos seus planos. O intercâmbio, de certa forma, serviu pra lhe mostrar que você não pertence a isso aqui. E vem aquela sensação de "eu devia ter nascido lá, nasci no lugar errado".
Para algumas pessoas, é tão complicado passar por esses sentimentos todos, pela tal síndrome do regresso,  que o único desejo delas é voltar pro país do intercâmbio ou para um outro país estrangeiro. 

A falta de readaptação ao Brasil faz com que muitos brasileiros comecem a pensar “eu não sou daqui” e então o objetivo passa a ser procurar meios de imigrar.
Muitos tentam (até conseguir) uma vaga de emprego no estrangeiro, buscam prosseguir com os estudos, tentam projetos que os ligue a um outro país.
Vivenciar algo que sempre se desejou no intercâmbio e ver esse laço cortado em seu regresso, faz com que muitos brasileiros façam as malas, busquem um destino no exterior e só voltem ao Brasil à passeio.

É... você foi mordido pelo bichinho do intercâmbio. E não tem mais volta não, por mais que tenha voltado pra cá. 
Mas sabe o que é melhor: aquele intercâmbio foi somente o primeiro, não precisa ser o único. 
E se quer um conselho: faz um intercâmbio atrás do outro... em todas as suas férias e em todas as oportunidades, em qualquer brecha. 
Não é somente o primeiro intercâmbio que foi inesquecível e espetacular... todos os que estão por vir, também podem ser... e você vai aproveitar mais e melhor... porque aprendeu o que deve e o que não se deve fazer.
De agora em diante, você somente pensará no próximo (intercâmbio).
Então, se manda!



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