segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Tolerância





Aos 16 anos, eu embarquei na maior aventura da minha vida. Talvez nenhuma outra seja comparável a ela pelo efeito que essa experiência teve em mim.
Decidi viver longe de tudo o que eu conhecia, tudo o que era familiar para mim, com uma nova família, num novo país, com língua diferente, e estudar em uma escola diferente.
Sempre estudei na mesma escola, desde os 4 anos de idade. Mudei de casa apenas uma vez na minha vida, aos 10 anos. Eu não fazia ideia do impacto que a minha decisão teria em mim.

Embarquei em agosto de 2001 para participar do programa de High School nos Estados Unidos. Iria morar por um ano na casa de “estranhos”, estudar em uma escola onde eu nunca havia estado, e não tinha nenhum amigo. Mas eu queria aprender a falar inglês, e ser capaz de entender as músicas que ouvia no rádio. Eu queria, de alguma forma, escapar para me descobrir.

E menos de um mês após minha chegada, o 11 de setembro aconteceu.

Aprender inglês foi bom, mas uma parte tão pequena de tantas coisas que aprendi. Aprendi sobre diferenças. Sobre amar, respeitar, sobre entender o outro lado e que é impossível se colocar no lugar do outro se eu não questionar cada uma daquelas coisas que são “normais”, que “sempre são assim”, que “todos fazem deste jeito”.
O “lado certo” de se dirigir um carro depende de onde no mundo você está. Jogar papel higiênico no cesto de lixo do banheiro e não dentro do vaso sanitário também. Isso partindo do pressuposto que se possui um carro, ou que a “casa” seja constituída como a conheço, que tenha cômodos separados, e que no banheiro exista um vaso sanitário.
Aprendi que o valor das coisas está no meu sentimento em relação a elas. E que uma memória afetiva não tem preço.

Sim, é textão. Sim, é clichê. Mas enquanto massacres, atentados, tiroteios, assassinatos fizerem parte do dia a dia, forem tratados como “normais”, continuarei acreditando que a melhor experiência da minha vida colocou tudo, absolutamente tudo o que eu conhecia e achava normal em jogo, e me fez questionar cada uma destas coisas “normais” que faziam parte dela.
Trabalhar com intercâmbio e ajudar de alguma forma outros adolescentes em experiências como a minha sempre foi inspirador. E é uma maneira de mostrar que, exceto por valores morais, sempre existe uma outra forma de ver as coisas. E que nem por isso somos melhores ou piores que ninguém. Somos apenas diferentes, e para coexistir é necessário, no mínimo, respeitar.

Duas das minhas irmãs de família americana estavam no festival de música de Las Vegas no momento do atentado, e mesmo distante, a única coisa que queria era saber que estavam bem.

Por todos que perderam alguém, ontem, no 11 de setembro, em um dos tantos atentados, ou em outros tristes eventos não noticiados, que encontrem conforto em seus corações.

Que  cada um de nós seja capaz de demonstrar, nas atitudes diárias, tolerância... e resistência a estes atos que não são contra um grupo, uma religião, etnia ou forma de pensar, mas são contra outros seres humanos semelhantes a nós.

Natália Marinho - diretora FYi Intercâmbios

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